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Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema

Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema

O Curtas Vila do Conde foi criado em 1993 e, desde então, tem procurado manter aquela que é a sua característica mais vincada: a evolução. Ao invés de se acomodar a uma fórmula, o Festival escolheu, desde o início, focar a sua atenção na transformação e na mudança, mantendo-se atento a inúmeras manifestações que têm lugar no campo do cinema. É por isso que não só a filosofia de programação do festival tem sido regularmente modificada (para poder acompanhar os fenómenos emergentes no campo das artes e da evolução da linguagem cinematográfica), como houve também uma aproximação (e contaminação) às artes plásticas, de onde têm surgido, cada vez mais, autores com um novo olhar sobre o cinema e a sua linguagem.

O Curtas desenvolveu-se ao longo de 17 anos, em torno das secções de Competição Nacional e Internacional de curtas-metragens. Estes dois espaços têm vindo a afirmar no plano nacional e internacional, um festival que funciona como rampa de lançamento para muitos jovens cineastas, especialmente realizadores que são hoje referências do cinema Português.

Além da sua vocação para dar a conhecer o formato curta, Vila do Conde tem procurado, através de novas secções, como o In Progress ou o Remixed , criar áreas de programação que se estendem a espaços expositivos, a apresentações sobre a forma de performance (cinema expandido) ou a propostas arrojadas que promovem interacções entre a criação visual e a musical.

Agência da Curta Metragem
A Agência da Curta Metragem foi criada em Janeiro de 1999 pela cooperativa Curtas Metragens. Com sede em Vila do Conde, a Agência tem vindo a desenvolver um trabalho de promoção e divulgação da curta metragem portuguesa em todo o mundo.

Entre as obras promovidas, encontram-se diferentes géneros como a animação, o documentário, a ficção, o filme experimental e a vídeo instalação.

A sua criação foi potenciada pela experiência acumulada na realização do Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema, e pela evolução (qualitativa e quantitativa) da produção nacional que acompanhou o desenvolvimento do próprio festival desde a sua criação. O aparecimento da Agencia fomentou uma maior divulgação do cinema português em todo o mundo.

O formato curta metragem que era praticamente desconhecido em Portugal até à criação do Festival de Vila do Conde adquiriu respeito no meio cinematográfico português, tendo a Agencia contribuído para aproximar os cineastas e produtores portugueses dos festivais internacionais de cinema, das televisões e dos programas de Curtas estrangeiros.
Festival e Agencia têm assim contribuído de forma determinante para dar a conhecer jovens cineastas no plano nacional e internacional, bem como para potenciar o aparecimento de jovens cineastas no plano nacional.

Curtas Vila do Conde em Belo Horizonte

A curta metragem portuguesa continua a ser confrontada com o mesmos tipo de dificuldades que o formato evidencia noutras cinematografias, nomeadamente no plano financeiro e da visibilidade junto do grande público. No entanto, apesar destes obstáculos, têm vindo a aparecer alguns cineastas e produtores que contribuíram para a criação de uma imagem forte e contemporânea do cinema Português através da Curta metragem.
O conjunto de filmes que integram este programa (a apresentar em Belo Horizonte) reflectem alguns dos fenómenos da evolução da Curta metragem Portuguesa.

Por um lado, o programa “dez anos da AGENCIA” integra quatro curtas (duas de animação, uma de ficção e um filme experimental) que traduzem casos de sucesso no panorama internacional.

A suspeita de José Miguel Ribeiro e História trágica com final feliz de Regina Pessoa, catapultaram os respectivos autores para o reconhecimento internacional numa área com pouca escola em Portugal, como o cinema de animação. Estes dois filmes, com técnicas distintas de animação, revelam uma enorme qualidade e maturidade na utilização das respectivas técnicas e na abordagem aos temas e histórias desenvolvidas. Hoje, graças a estes dois filmes, e também à evolução da obra dos dois cineastas, a animação portuguesa tem outra visibilidade a nível mundial e, por mais do que uma vez, foram apresentados filmes de animação portuguesa no Cartoon dòr.

O filme China China foi também um caso de sucesso em festivais internacionais e mostra o aparecimento, no formato Curta metragem, de um cineasta português cuja obra se tem evidenciado na longa metragem- João Pedro Rodrigues. O aparecimento de cineastas e produtores mais consagrados (com um interesse cada vez maior em realizar ou produzir curtas em Portugal), mostra que esta tendência pode também contribuir para a afirmação de um cinema com um percurso mais marginal relativamente aos circuitos dominantes do cinema comercial.

Finalmente, o filme Beacon de Matthias Mueller e Cristoph Girardet, comissariado e produzido pelo festival de Vila do Conde, representa um aspecto distinto da Curtas enquanto Festival e Agencia. Trata- se de um filme de cariz experimental, realizado por duas figuras importantíssimas do cinema experimental mundial, cuja obra se tem afirmado através de uma apurada forma de apropriação e manipulação de found footage. Este filme contém material filmado em diferentes cidades do mundo à beira mar, entre as quais Vila do Conde, numa montagem quase imperceptível com excertos de longas-metragens e imagens de viagens de férias, que acaba por criar um lugar único e imaginário. A AGENCIA promoveu com enorme sucesso, junto de festivais e galerias, este filme que, embora realizado por dois artistas alemães, foi produzido pelo próprio projecto Curtas e contribuiu para o seu prestígio além fronteiras.
O conjunto de filmes Da produtora O som e a fúria, dão a conhecer aqueles que têm sido provavelmente as três figuras mais destacadas da Curta metragem Portuguesa: Miguel Gomes, Sandro Aguilar e João Nicolau. Estes três realizadores venceram, por mais do que uma vez, o grande prémio da competição do Curtas Vilas do Conde e consolidaram, através dos seus filmes, a criação de uma imagem de um cinema de autor verdadeiramente novo e distante de algumas fórmulas que vingaram no formato curta ao longo dos últimos anos. Esta fenómeno tem se consolidado numa pequena estrutura de produção ( O som e a fúria) que fomenta um cinema de forte personalidade, no qual são exclusivamente produzidos autores e filmes que se enquadrem na sua filosofia. A orientação deste importante projecto tem se solidificado através do trabalho do produtor Luís Urbano e na sua interacção com o cineasta e produtor Sandro Aguilar. Por se tratar de uma produtora com estas características, os seus cineastas têm uma enorme liberdade criativa e por vezes uma cumplicidade que proporciona a sua participação nos projectos dos outros (colaborando como actores, montadores, músicos ou argumentistas). Sandro Aguilar e Miguel Gomes foram figuras centrais de um fenómeno que teve lugar no cinema português e que ficou conhecido como o “Geração Curtas”. Este último caracterizou-se pelo aparecimento de um conjunto de filmes e autores que perspectivaram o aparecimento de um novo cinema português, com origem nas Curtas metragens.

João Nicolau é o mais recente talento desta importante referência do cinema português contemporâneo, que é o Som e a Fúria. Os seus filmes caracterizam-se por uma genial e inovadora forma de reinventar o cinema através da reutilização de códigos do cinema clássico ou musical. A montagem, o rigor dos textos e a forma divertida como dirige os actores fazem-nos pensar que o futuro do cinema é algo em que podemos, e devemos, acreditar.

Finalmente, o programa Curtas Vila do Conde integra um conjunto de filmes recentes (2008/2009) alguns dos quais foram premiados no festival de Vila do Conde.

Cláudia Varejão, Rodrigo Areias e João Salaviza representam uma nova vaga do cinema português e são provavelmente dos mais promissores cineastas da actualidade. Tal como o pode comprovar, por exemplo, a apresentação de Um dia frio, de Cláudia Varejão, ( em competição no ultimo festival de Locarno) ou, de uma forma ainda mais visível, Arena, de João Salavisa (que foi palma de ouro em Cannes), e que veio a tornar ainda mais forte a imagem e o respeito pela Curta Metragem em Portugal.

Estes autores parecem potenciar uma nova geração, diferente na forma e nos conteúdos, daqueles que formaram a referenciada Geração Curtas, que foi determinante na afirmação deste formato quase inexistente no início da década de 90, e que acabou por fazer escola no cinema Português a partir do final dos anos noventa. E pelas primeiras provas dadas, estes novos realizadores parecem estar a contribuir para um reconhecimento internacional do cinema português que, até agora, era pouco usual no formato Curta.

O último filme do programa, Ruínas de Manuel Mozos, é provavelmente o elemento mais estranho desta programação e, pode mesmo dizer-se, o de mais difícil integração no fenómeno Curtas em Portugal. Trata-se de um filme de um cineasta com uma obra vasta em longa metragem , (iniciada em 1989) e que tem vagueado entre a ficção e o documentário.

Manuel Mozos, pelo carácter da sua obra e pelo seu papel na montagem de inúmeros filmes portugueses, é uma figura extremamente respeitada no meio cinematográfico português, e goza mesmo de algum reconhecimento internacional junto da crítica e de alguns festivais que privilegiam o cinema de autor. Por outro lado tem sido um elemento inspirador para as gerações mais novas do cinema nacional, pela sua participação em filmes e curtas, como argumentista, montador ou até actor.

Ruínas é um documentário muito pouco convencional, filmado em alguns lugares e espaços arquitectónicos abandonados,( entre os quais o Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde que é, provavelmente o, edifício mais emblemático da cidade). Trata-se de um filme que rejeita a nostalgia habitual na abordagem à arquitectura ou aos lugares da memória, antes nos transportando para um lugar de fantasias e deliciosas ficções.

Trata-se dum filme de 60 minutos, duração pouco usual na maioria dos festivais de cinema. Esta tem sido uma das apostas do festival de Vila do Conde o de programar filmes cuja duração não tem qualquer afinidade e dependência em relação aos formatos televisivos, mas antes o de dar a conhecer obras cuja duração resulta de uma necessidade de linguagem que extravasa as limitações impostas (ora pelos formatos televisivos, ora pela pequena duração privilegiada nos espaços de exibição web ou até nos festivais de cinema de curta metragem).

Esta mostra não pretende ser uma demonstração exaustiva do que é a curta metragem portuguesa, nem sequer identificar quem são os seus principais realizadores ou produtores. Pretende antes, através dos filmes, dar a conhecer alguns realizadores e qual o papel de curadoria do festival de Vila do Conde na construção de uma imagem para o cinema Português (dentro e fora do País) e no seu papel de divulgação em conjugação com o projecto da AGENCIA.

Curadores: Dario Oliveira, Miguel Dias, Nuno Rodrigues

http://www.curtasmetragens.pt/

Duração VDC 1: 73 minutos
Formato de exibição: Vídeo/35mm

VDC 1 - Destaques do Festival Vila do Conde I

UM DIA FRIO

Cláudia Varejão

Portugal, 2009, 27’, cor, vídeo

“COLD DAY” is a portrait of a first relationship, previous to the external world, the one of the family. In a winter in Lisbon, father, mother, son and daughter, trace the path of a day by themselves. A film that develops through characters who have for their antagonist life itself, with nothing (and everything) heroic about it.

ARENA

João Salaviza

Portugal, 2009, 15’, cor, 35mm

Mauro is under house arrest. Tattooing helps him while away the time. Three local kids taunt him through his window. Outside, the midday sun beats down.

CANÇÃO DE AMOR E SAÚDE

João Nicolau

Portugal / França, 2009, 30’, cor, 35mm

João é o único empregado visível no estabelecimento comercial Chaves Morais. É também o filho do proprietário e não hesita em se ausentar do serviço para gastar moeda atrás de moeda na Máquina do Amor. Marta do Monte é uma estudante de Belas Artes portadora de uma inusitada encomenda. A chave que para ela João copia abre mais que uma porta.

Duração VDC 2: 67 minutos
Formato de exibição: Vídeo/35mm
Legendas em português

VDC 2 -10 anos de Agência

HISTÓRIA TRÁGICA COM FINAL FELIZ

Regina Pessoa

Portugal / Canadá / França, 2005, 7’46’’, p&b, 35mm

Há pessoas que, contra a sua vontade, são diferentes.
Tudo o que desejam é serem iguais aos outros, misturarem-se deliciosamente na multidão.
Há quem passe o resto da sua vida lutando para conseguir isso, negando ou tentando abafar essa diferença.
Outros assumem-na e dessa forma elevam-se, conseguindo assim um lugar junto dos outros… no coração.

A SUSPEITA

José Miguel Ribeiro

Portugal, 1999, 25’, cor, 35mm

Um compartimento de trem, quatro pessoas, um revisor, um canivete de Barcelos e um potencial assassino. Chegarão todos ao fim da viagem?

CHINA, CHINA

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

Portugal, 2007, 19’, cor, 35mm

China desce as escadas em direção ao distrito de Martim Moniz, em Lisboa.
“China, China!”, gritam as crianças quando ela passa.
China vai voar. Fugir para longe ao amanhecer. Ela só quer ser feliz. Mas China bebe o seu próprio veneno. Bebe-o até ao fim. Por vezes o ar parece carregado de mal e o purgatório um jardim infantil.

BEACON

Christoph Girardet e Matthias Müller

Portugal / Alemanha, 2002, 15’, cor, vídeo

Beacon é uma montagem de “location shots” filmadas em dez lugares diferentes do mundo. Estes lugares estão ligados pelo fato de cada um estar situado à beira mar.

Duração VDC 3: 73 minutos
Formato de exibição: Vídeo/35mm

VDC 3 -Som e Fúria

CÂNTICO DAS CRIATURAS

Miguel Gomes

Portugual, 2006, 24’, cor, 35mm

Um trovador percorre as ruas da cidade natal de S. Francisco cantando e tocando o Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas, texto que S. Francisco redigiu no Inverno de 1224.
Bosques de Umbria, ano de Mil Duzentos e Doze: Durante uma pregação aos pássaros, S. Francisco desfalece subitamente. Reanimado por St. Clara, o santo parece estranhamente ausente e sem memória. Quando a noite cai, os animais da floresta cantam em glória a Francisco. Mas esse amor cantado começa a gerar um sentimento de posse, um desejo de exclusividade, ao qual habitualmente chamamos de ciúme.

CORPO E MEIO

Sandro Aguilar

Portugal, 2001, 25’, cor, 35mm

Por instinto cobre a chama instável à sua frente, o fogo consome aos poucos as lágrimas e a febre. Só depois começa o lamento. O vento frio varre a cinza no chão e gela a sala.

RAPACE

João Nicolau

Portugal, 2006, 25’, cor, 35mm

Cumpridas as obrigações acadêmicas, Hugo passa os dias em casa descansando a cabeça de intermináveis leituras de autores pouco conhecidos. A sua única companhia doméstica é Luisa, a empregada, cúmplice dos jogos de gato e rato.
Para afugentar o sono da razão Hugo exercita a veia lírica escrevendo, com o amigo Manuel, canções sobre o bairro onde ambos habitam.
O plácido diletantismo do protagonista é abalado por Catarina, uma jovem bonita que é tradutora e dá os primeiros passos na vida profissional em regime free-lancer.
Hugo está pelo beiço, fraqueja. Lá em cima, um falcão paira. Não é a única ave capaz de fazê-lo.

Duração VDC 4: 76 minutos
Formato de exibição: Vídeo/35mm

VDC 4 - Destaques do Festival Vila do Conde II

CORRENTE

Rodrigo Areias

Portugal, 2008, 15’45’’, p&b, 35mm

Ele é mineiro, todos os dias tenta deixar-se ir com a corrente do rio.
Ela sonha em ir também, mas está presa.
Estão todos, presos por uma corrente.
São dominados pela força da montanha.
É de lá que saem todos os dias e para onde voltam a entrar.
Um dia a corrente partiu-se.

RUÍNAS

Manuel Mozos

Portugal, 2009, 60’, cor, vídeo

Fragmentos de espaços e tempos, restos de épocas e locais onde apenas habitam memórias e fantasmas. Vestígios de coisas sobre as quais o tempo, os elementos, a natureza, e a própria ação humana modificaram e modificam. Com o tempo tudo deixa de ser, transformando-se eventualmente numa outra coisa.
Lugares que deixaram de fazer sentido, de serem necessários, de estar na moda. Lugares esquecidos, obsoletos, inóspitos, vazios.
Não interessa aqui explicar porque foram criados e existiram, nem as razões porque se abandonaram ou foram transformados. Apenas se promove uma idéia, talvez poética, sobre algo que foi e é parte da(s) história(s) deste País.