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“Não se trata de buscar o sentido do mundo, mas de segui-lo: o mundo não tem sentido, ele é o sentido”: foi com essa proposição que inauguramos, no ano passado, a mostra Movimentos de Mundo, no Festival Internacional de Curtas BH. A proposta de uma descrição do mundo em imagens-movimento: uma espécie de dança. O mundo já não parece ter tantos mistérios, mas, por mais que tenha mudado, por mais que o planeta tenha girado desde que o cinema surgiu há mais de cem anos sob a promessa de constituir uma espécie de “enciclopédia de mundo”, esse potencial científico do cinema-como-instrumento-de-decifração-do-mundo nunca se perderá de todo. Um instrumento entre o microscópio e o telescópio, feito à medida do homem. O mundo, afinal, é o que está entre as pessoas: essa perspectiva algo política move essa mostra, a de proporcionar para o seu espectador o instantâneo de diferentes lógicas de mundo, isto é, o “aparecimento do ser em diferentes mundos/situações”, como diria Alain Badiou. Mas, se existe uma lógica comum aos movimentos que compõem a mostra deste ano, é a do embate entre as possibilidades da globalização e as regressões étnicas e identitárias, entre o destruir e o erguer fronteiras. Movimentos que não parecerão assim tão contemporâneos do ponto de vista daqueles que são os seus principais personagens, os emigrantes e refugiados (os condenados da terra). Como no ano passado, estes protagonizam boa parte dos filmes selecionados, seres caçados e deserdados (política ou economicamente): chineses muçulmanos inadaptados em uma ilha do Pacífico (Palau – Blue Sky), trabalhadores tailandeses fazendo colheita em campos finlandeses (Miten marjoja poimitaan), refugiados africanos tentando aprender hebraico em uma escola israelita (Transparent black), jovens palestinos tentando atravessar a fronteira de Israel (Arquipel). Vindos de lugares diversos, esses personagens guardam em comum um mesmo prefixo, o “sem”: são os sem-pátria, os sem-documento, os sem-teto, os sem-terra, os sem-trabalho. Fundamentalmente, os sem-direito. Seres historicamente excluídos, que parecem viver aquém e além da ordem jurídica do Estado de Direito, exilados da existência política, tidos como indignos de cidadania integral, espécie de proscritos cuja vida, para os Estados, parece ser invariavelmente passível de sacrifício e de extermínio – personagens que remontam, como lembra o filósofo italiano Giorgio Agamben, à figura romana do Homo Sacer: homens banidos da sociedade para uma espécie de limbo entre a vida social e a natural, e que podiam ser mortos sem que isso fosse considerado homicídio.
Curiosamente, no entanto, o filme que talvez seja o mais original da safra deste ano é justamente aquele que inverte essa lógica sacrificial, propondo uma nova e surpreendente forma de política, o israelense Out. Entre discursos e rituais de sadomasoquismo, jovens judeus tentam exorcizar os fantasmas da direita israelense que vivem dentro deles e expurgar os sofrimentos impostos por seu país ao povo palestino. Imperdível.
João Toledo, Leonardo Amaral, Luiz Pretti, Marcelo Miranda, Ricardo Mehedff e Tiago Mata Machado
Comissão de Seleção – Curtas Internacionais
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