Em meio ao abismo do não-saber

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Em meio ao abismo do não-saber*
Genet parle d’Angela Davis (Carole Roussopoulos, 1971)

Lorenna Rocha**

 

Take 196. Criar um manto de possibilidades relacionais para estar diante daquilo que não consigo acessar em sua totalidade.

 Take 172. Hey, Angela / They put you in prison / Angela / They shot down your man / Angela / You’re one of the millions / Of political prisoners / In the world (—- —— – —- —)

Take 200. Mergulhar no desconhecido, em meio ao abismo do não-saber. Como se relacionar diante de alguém que fala uma língua a qual não se compreende? Como se conectar com aquilo que você não consegue decodificar em seus próprios termos, sem reduzi-lo a uma gramática a qual você entende? Como estabelecer uma ligação com aquele homem, de olhos escuros e atentos, com seus óculos pretos, de pele branca e envelhecida?

Take 318. Durante o primeiro intervalo da gravação, as pessoas cochicham algo entre si e se direcionam a ele. Pressinto um clima de negociação. Será que estão conversando sobre como Genet deveria performar diante das câmeras da ORFT? Ele parece pedir algo para beber e é rapidamente servido. Carole capta a sutileza do gesto, a qual contrasta com a voz agitada do homem de olhos escuros e atentos, que acabara de fazer a primeira leitura de sua carta pela libertação de Angela Davis e em apoio ao Partido dos Panteras Negras. Contendo um pouco de sua energia nas próximas leituras, a frequência e potência de sua voz diminuem, e seu desconforto parece se manifestar na ação de colocar e tirar seus próprios óculos.

Take 100. A repetição como possibilidade de fazer com que o discurso se firme aos ouvidos, buscando ativar todos os outros sentidos. Mesmo portando a tradução do texto escrito por Jean Genet, a experiência com a matéria fílmica se iniciou num gesto de recusa: contra o regime do entendimento.

Take 804. Quais implicações (e contradições) transbordam quando Genet se dispõe a enunciar seu discurso anti-imperialista em um órgão estatal francês? Podemos enclausurar (portanto, reduzir) a questão dentro do lugar social ocupado pelo intelectual, pelas marcações do seu corpo, seu local de origem e seu idioma?

Take 199. Révolutionnaire. Américain. Administration. Blanc. Noir. Libération. Parle. Blanc. Noir.                   Blanc.                   Blanc.                  Blanc.                  Blanc.                Blanc.

Take 007. Ao intuir uma possível censura pelo governo francês, as presenças de Roussopoulos e de seu companheiro Paul, ambos do Video Out, poderiam garantir a sobrevivência (material e simbólica) da ação de Jean Genet. Nesse evento, existe algum tipo de pressentimento manifestado.

Take 008. Abrir os procedimentos de feitura compõe a performance textual ou é se lançar na falida transparência?

Take 314. Ir à televisão como possibilidade de levantar uma contranarrativa sobre a prisão de Angela Davis… Ir à televisão para ser visto… Ir à televisão como tentativa de mobilizar algo ou alguém… Ir à televisão para tentar impedir um acontecimento… Ir à televisão para emitir um alerta… Ir à televisão…

Take 219. O primeiro take é totalmente enfático, e há urgência na voz de Genet. Com a carta em mãos, ele inicia sua leitura, encenando as palavras escritas dentro da oralidade, ativando um corpo enérgico. Suas palavras afetam e agem. Não sei francês.

Take 209. Qual coreografia imperialista está (pré)estabelecida entre Estados Unidos e França?

Take 801. Aquilo que a luz negra proporciona, o que ela oferece à tarefa de refletir sobre o mundo e de des-pensá-lo [unthinking] é a possibilidade de considerar o pensamento por outro viés: e se o que interessa no trabalho de arte ultrapassa a representação não por conta de seu “por quê”, ou de seu “quando” ou de seu “onde”, mas em razão de seu “como” e seu “o                      quê”?                      (——                      ——-                   —                   —–)

Take 171. Em close-up, desde o início do curta-metragem, a movimentação do zoom acontece de maneira muito sutil, sempre acompanhando o ritmo das palavras de Jean Genet. Enquanto a câmera de Carole o acompanha, ela revela, aos poucos, os elementos presentes no espaço: claquete, microfone, suporte. Dessa espacialidade, emerge um conjunto de componentes que apontam para um ambiente estável e seguro para esse corpo (branco, cisgênero, intelectual, europeu) se manifestar, expondo, por assim dizer, suas próprias contradições. Quando contrastamos esse quadro desenhado naquele ambiente ao das mobilizações políticas e ações diretas realizadas por grupos e movimentos sociais, como o dos Panteras Negras, a performance daquele homem de olhos escuros e atentos pode parecer deslocada da convulsão política que tomava conta das ruas, em sua época.

Take 182. Como re/de/compor a matéria fílmica no escuro?

Take 017. Tudo em preto e branco na tela. Olho para a mesa, cadeira, papel de parede: estão em um estúdio ou um quarto de hotel? Vejo o corpo inquieto daquele homem de olhos escuros e atentos. Novamente o contraste. Enquanto pratico esses atos de nomeação através de uma gramática que me é comum, percebo que estou na contradição do meu próprio exercício. Retorno para a  ação de Jean Genet. Volto para a língua francesa.

Take 196. Criar um manto de possibilidades relacionais para estar diante daquilo que não consigo acessar em sua totalidade.


*Fotograma comentado escrito especialmente para o catálogo do 22º FestCurtasBH. Referência para citação: ROCHA, Lorenna. Em meio ao abismo do não-saber. In: Ana Siqueira et al (Orgs.). Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2020. ISBN 978-85-66760-53-8 (impresso)/ ISBN 978-85-66760-54-5 (online). 
**Lorenna Rocha é graduanda em História (UFPE). Pesquisadora, atua como crítica de cinema no blog Sessão Aberta (SP). Compõe o corpo crítico e é revisora textual na revista 4 Parede (PE). Participou do XI Júri Janela Crítica (2018), Talent Press Rio (2019) e Júri da I Mostra Fale de Cinema Independente (2020).

Referências
DA SILVA, Denise Ferreira. Em estado bruto. Tradução: Janaína Nagata Otoch. ARS (São Paulo), v. 17, n. 36, p. 45-56, 2019. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br /ars/article/view/158811>. Acesso em: 30 de setembro de 2020.
GLISSANT, Édouard; COSTA, Keila Prado; DE TOLEDO GROKE, Henrique. Pela opacidade. Universidade de São Paulo. Revista Criação & Crítica, n. 1, 2008. p. 53-55. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/64102>. Acesso em: 30 de setembro de 2020.
MOMBAÇA, Jota. MATTIUZZI, Musa Michelle. Carta às leitoras pretas do fim do mundo. In: A Dívida Impagável. Denise Ferreira da Silva. Casa do Povo. São Paulo: Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019. p. 14-27.