Onde fica o coração da multidão?*

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Onde fica o coração da multidão?*
Y’a qu’à pas baiser! (Carole Roussopoulos, 1971-1973)

Ingá**

A câmera se move entre elas, ao mesmo tempo inquieta e cúmplice do ritmo ditado pelos gritos de guerra que atravessam o quadro. A sonoridade da passeata tanto embala o movimento quanto atiça sua ruptura. Antes de a rua tomada por mulheres aparecer, assistimos a uma ligeira compilação de fragmentos dos anúncios publicitários e jornais televisivos em que outras mulheres eram vistas e homens, ouvidos discorrer a respeito de um embate: a luta pelo aborto legal e gratuito na França, ano de 1971.

É só não trepar! (Y’a qu’à pas baiser!, Carole Roussopoulos, 1971-1973) transcorre seus 17 minutos em busca do confronto, seja ele entre as imagens ou no encontro com suas personagens. Cortes ligeiros e movimentos contínuos de câmera põem em relação três atmosferas: vídeos televisivos, uma mobilização popular e uma cirurgia. Nenhum plano se contenta com seu quadro inicial, e nenhum diálogo com sua resposta primeira. É preciso forçar um pouco mais o limite do possível, é preferível a cólera do embate à morte por asfixia. A cada deslocamento, a câmera se detém por instantes em algo — “aquele era um momento para ser assistido”. Eis que estamos dentro da sala de operação cirúrgica, os gritos da rua ecoam frescos na memória, ainda que o interior já abrigue um silêncio acústico, não fosse pela eloquência da conversa entre as mulheres que participarão do procedimento abortivo. Nem paciente, acompanhante ou médica, na ante-sala elas se tornam companheiras.

Enfática, a conversa gira ao redor do momento, de experiências sexuais pregressas e do espanto com a possibilidade de ver e mostrar as funduras do próprio corpo. Nesse mostrar, a participação de um gesto tão obsceno quanto o primeiro plano do filme: uma rosa que exibe todas as suas dobras internas no centro do quadro, diante da câmera. Talvez essa disposição se dê pelo fato de o filme ser dinamizado por uma montagem que retrabalha seus materiais a partir de uma descarada irreverência. A perambulação, aliada ao corte-colagem, dá uma sorte de liga dialética inclusive aos elementos contrários à reivindicação popular. Até a defesa trajada de sensatez, que faz o médico da televisão em rechaço à possibilidade das mulheres abortarem (“e o sangue desses bebês?”) terá seu lugar de existência maliciosamente garantido na obra. Assim também na decisão do título, tomado de empréstimo de uma das passantes que topa com o ato na rua e, perguntada sobre sua posição, rejeita até a demanda contraceptiva sugerindo “é só não trepar!”. 

A coragem de mexer nesses signos e formas — enunciados, imaginários, maneiras de enquadrar —, que forjaram a submissão histórica de pessoas com útero, aqui não opera por antagonismo. O antagonismo grudaria um sabor amargo na boca. É só não trepar! enfia a mão no vespeiro, também da ferida e da violência, como quem carrega um desaforado riso entre os dentes. Tal disposição se nutre do espírito que toma as ruas e o persegue. Não à toa, os cantos entoados estão mais próximos do gozo do maio de 1968 do que das marchas militares que povoaram as revoluções do século XX. Estar no meio das mulheres em caminhada, é encontrar entre elas as crianças, aquilo que elas não exatamente são: “Abaixo a escola! Igualdade”. Sair em busca do fora: as mulheres que assistem a multidão passar, perguntá-las o que acham e jamais se satisfazer ao ouvir “eu apoio”, disparando a pergunta engatilhada: “E por que você não se junta?”. Na mesma vibração, direcionar a câmera para os homens que as veem da calçada, aproximar-se deles e encarar os seus olhares sem precisar entregar-lhes palavra alguma. Insistir com a mulher que rejeita o movimento político até que ela meta a mão na lente da câmera contestando o próprio ato de ser filmada.

Alguma proximidade com o gesto dos modernos de desnudar os procedimentos técnicos se exibe quando a imagem televisiva é reposicionada como uma imagem de dentro do tubo e, em mais um movimento de câmera (ela não cessa), visualizamos a mesa de bobina das películas. Ainda detida nesta imagem — um homem, agora falando de dentro do tubo da televisão, interroga sobre o feto —, a paisagem sonora estala com as cantorias da multidão e faz do discurso de ode ao sangue do bebê, em relação com a pulsão dos cantos, um discurso anêmico. Assim também poderiam ser vistos os percursos de É só não trepar!: uma vontade perene de ir até os tubos de proteção — tubo de quem aprova o ato à distância, da palavra da rua quando descolada da experiência da casa, da fuga da imagem obscena de si.

Na sala operatória, enquanto dura o procedimento, as pernas estão dobradas quando uma mão deita seu palmo sobre o joelho da outra parceira. A câmera corre para esse quadro, sugestivo daquilo que encoraja o filme a se mover tanto. Lembremos que É só não trepar! se passa no mesmo ano do manifesto das 343 putas, quando 343 mulheres declararam publicamente já terem feito um aborto, expondo-se a um processo criminal, acelerando a conquista do direito a fazê-lo e inaugurando uma tática que sempre poderá ser revivida. Solidariedade, nesse quadro e nesse ato, é uma palavra prática que ressuscita ao conduzir pele em direção à pele. Que motiva elas a se juntarem e impulsiona o filme a dar a cada instante mais um passo.

No importuno de seguir adiante, é como se a obra vivesse a fim de encontrar um coração mais próximo ou, melhor dizendo, como se desconfiasse que, em meio ao levante, o coração está por toda parte e ele não existe ainda. Assim, é necessário ir um pouco mais, levar a multidão ao consultório por operação de montagem, perguntar o que você ainda não sabe, hastear a bandeira para queimá-la. Sem órgãos definidos, o motim se espalha, mas existirá algo bombeando sangue para que a câmera siga em movimento. Se a multidão é um monstro sem rosto e coração, Carole Roussopoulos reencontrou o coração no íntimo de um útero em processo abortivo.


* Fotograma comentado escrito especialmente para o catálogo do 22º FestCurtasBH. Referência para citação: INGÁ. Onde fica o coração da multidão? In: Ana Siqueira et al (Orgs.). Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2020. ISBN 978-85-66760-53-8 (impresso)/ ISBN 978-85-66760-54-5 (online).

** Ingá é pernambucana, faz graduação em cinema na UFF, constrói junto a Revista Cinética e se interessa pelo contato com imagens produzidas no correr das lutas.

Agradeço a leitura parceira de Fabio Rodrigues Filho e Rodrigo Sá, dois aliados.