Romper a clausura, desmontar o teatro*

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Romper a clausura, desmontar o teatro*
Maso et Miso vont en bateau (Nadja Ringart, Carole Roussopoulos, Delphine Seyrig e Ioana Wieder, 1975) 

Camila Vieira**

“Nenhuma imagem da TELEVISÃO não quer nem pode nos refletir. É com o VÍDEO que nós nos narraremos”. As duas frases finais da cartela que encerra Maso et Miso vont en bateau (Nadja Ringart, Carole Roussopoulos, Delphine Seyrig e Ioana Wieder, 1975) colocam em oposição a televisão e o vídeo no que tais mídias conseguem elaborar como construção de imagens e narrativas. A estratégia do média-metragem feito em vídeo pelo grupo de quatro realizadoras é intervir em imagens de um programa de TV. Mais que um movimento de elaboração, o vídeo aqui é um ato de intervenção. Bastante coerente com o pensamento e a ação do grupo/coletivo feminista que se chama Les Insoumuses — uma justaposição de insoumises (rebeldes) e muses (musas).

A rebeldia pelas ferramentas do vídeo pode instaurar fissuras em um material produzido para televisão? É possível produzir desconforto em imagens feitas para agradar? Comandado por Bernard Pivot, o programa de televisão do canal Antenne 2 não esconde sua estratégia de entreter espectadores para tratar do fim do Ano da Mulher naquele 30 de dezembro de 1975. O apresentador olha para a câmera e anuncia que recebeu da direção — inclusive a ordem veio de uma diretora (Agnès Delarive) — a tarefa de realizar um especial descontraído, engraçado, com canções, piadas e esquetes. A mise-en-scène do programa se constitui como orquestração do humor e do entretenimento de quem assiste.

Diante das câmeras, participantes do programa de TV cumprem um protocolo de domesticação teatralizada de códigos para quem deve ocupar uma função naquele estúdio montado. De um lado, uma mulher branca de meia idade como convidada principal: a sempre sorridente e complacente Françoise Giroud, secretária de Estado da Condição Feminina, dentro do gabinete do primeiro ministro Jacques Chirac, de 1974 a 1976, na França. Do outro lado, um homem branco — o apresentador Bernard Pivot — cujo único interesse é lançar para a convidada perguntas maliciosas sobre “A Mulher” (aqui entre aspas e com A e M em maiúsculo para enfatizar que o programa toma como pressuposto uma noção universal e essencial de mulher).

Como todo programa que se interessa em criar pílulas rápidas de docilização do olhar e de mentalidades, o especial do Antenne 2 quer fazer com que o público imediatamente se convença de que Giroud seja autorizada a falar em nome d’A Mulher. Afinal de contas, ela é a representante da Condição Feminina no governo da França àquela época. Dentro do debate sobre a política institucional, é necessário defender uma maior representatividade de mulheres, sobretudo em bancadas majoritariamente masculinas. Mas a questão que interessa discutir é se, de fato, estamos defendendo as representatividades concretas de mulheres em diferentes espaços da esfera pública. Ou apenas legitimando arremedos de aparências na política institucional que justifiquem a presença de mulheres como Françoise Giroud ou, mesmo aqui no Brasil, alguém como Damares Alves[1], que estão a serviço da máquina machista do poder patriarcal.

Há uma mensagem de alerta na cartela final de Maso et Miso vont en bateau:

Nosso propósito não é comentar sobre a pessoa de Françoise Giroud, nem saber se outra mulher faria melhor ou pior no seu lugar. Nosso propósito é mostrar que nenhuma mulher pode representar outras mulheres dentro de um governo patriarcal, seja qual for.

Ou seja, não é possível tomar a parte pelo todo, sobretudo quando a parte é a expressão de um poder que oprime. O que podemos fazer diante de uma imagem de representatividade que não é concreta, mas que é instrumentalizada para a legitimação de discursos de poder e cristalização de ideias universais e essencialistas que nos enclausuram? É preciso romper a clausura e desmontar o teatro. Por teatro entende-se aqui toda a orquestração televisiva que coloca uma mulher como a encarnação da “condição feminina” ou, como diria Simone de Beauvoir, a pura mistificação. Para o coletivo Les Insoumuses, a mistificação que o programa de televisão instaura é como um pêndulo que oscila entre Maso (a necessidade feminilizada de agradar) e Miso (o desejo masculinizado de alcançar o poder). É um barco naufragado entre o masoquismo e a misoginia.

Para desmontar tal orquestração, é preciso inserir cartelas escritas à mão, e muitas delas oscilam diante de nosso olhar, como se estivessem ao balanço de uma onda. Mas a grande onda é a montagem debochada que o coletivo propõe como intervenção nessas imagens televisivas. Algumas cartelas enfatizam o tom de perplexidade do coletivo diante das respostas da secretária: “Hã? O que? Como?”. Em outras cartelas, a galhofa é direcionada aos tópicos discutidos, como a proclamação do Ano Internacional da Mulher, em 1975, pela Organização das Nações Unidas: “O menu da ONU – 1974: fome; 1975: mulher; 1976: queijo ou sobremesa”.

Ao longo da emissão do programa, Pivot anuncia sucessivos personagens que assumem uma pletora retumbante de discursos misóginos. A intenção é levar Françoise Giroud a responder sobre tais colocações. No entanto, a secretária é negacionista. Além da recusa em afirmar que qualquer um deles possa ser misógino, ela ainda elabora argumentos como: “existem mulheres que amam misóginos” ou “isso é a linguagem de um homem que ama mulheres”. Pelos cortes da montagem do vídeo feito pelo coletivo, as frases absurdas são repetidas em sequência. A repetição não só enfatiza o que está sendo dito, mas provoca uma vertigem em quem escuta. Trechos do discurso de Giroud também são alternados por cartelas com “aviso às mulheres agredidas” ou “você pode ser melhor que isso, Françoise!”.

Com voz mansa e postura agradável aos seus interlocutores homens, Françoise Giroud normaliza a misoginia. Ela considera natural que homens possam se aventurar e mulheres apenas cuidem dos filhos, ou que determinadas profissões sejam tarefas fisicamente difíceis para mulheres, como ser médica ou chef de cozinha. Aos poucos, o que aparece escrito nas cartelas escapa do tom de espera por uma resposta adequada de Giroud para uma confrontação mais incisiva por meio de enquetes de múltipla escolha: “Ela é… Sinceramente masoquista? Hipocritamente masoquista? Vendida? (Se sim, a qual preço?)”.

A crítica visceral das realizadoras no vídeo também faz uso de interferências sonoras. Uma delas grita “Mamãe! Mamãe! Mamãe!”, quando Giroud explica que “foi uma mulher que criou essa coisa maravilhosa que é uma criança”. Ou quando a secretária diz algo rapidamente e as quatro vozes do coletivo se misturam e questionam o que ela falou a partir de trocadilhos com palavras. Em dois breves momentos de Maso et Miso vont en bateau, as quatro realizadoras aparecem na ilha de edição, com monitores que exibem as imagens do programa. Elas reagem jocosamente às falas de Giroud, cantando “tudo vai bem, madame ministra!” ou mesmo conclamando vários “muito bem!” de forma irônica. Se a ideia original do programa de TV era divertir a audiência de massa, o coletivo também se serve da diversão, mas para desarranjar a ordem — de expectativas, de zonas de conforto, de discursos palatáveis. Fazer vídeo como intervenção política pode ser bastante engraçado. E por que não seria?


* Fotograma comentado escrito especialmente para o catálogo do 22º FestCurtasBH. Referência para citação: VIEIRA, Camila. Romper a clausura, desmontar o teatro. In: Ana Siqueira et al (Orgs.). Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2020. ISBN 978-85-66760-53-8 (impresso)/ ISBN 978-85-66760-54-5 (online). 
** Camila Vieira é Crítica, curadora e pesquisadora de cinema. Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escreve atualmente na revista eletrônica Multiplot e integra o podcast Feito por Elas. Faz parte da equipe de curadoria de curtas-metragens da Mostra de Cinema de Tiradentes, desde 2018, e da mostra contemporânea de curtas da CineOP, desde 2019. Integrou a equipe de programação da Semana de Cinema, antiga Semana dos Realizadores, em 2017 e 2018. Organizou o livro Mulheres atrás das câmeras: as cineastas brasileiras de 1930 a 2018, publicado pela editora Estação Liberdade (2019). É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

[1] Atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, no governo Bolsonaro.