Carole Roussopoulos – Câmera na mão, corpo na luta

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Carole Roussopoulos – Câmera na mão, corpo na luta
por Ana Siqueira

 

É mais uma questão de energia do que de estética. E uma questão de cólera,
palavra de que gosto muito. Acho que a cólera é algo extremamente
positivo. É o que não nos deixa dormir (…)
[1]

Se energia e cólera se manifestam como motor e mote do trabalho da realizadora franco-suíça Carole Roussopoulos (1945-2009), é a alegria da luta que parece fazer a liga nessa obra militante que se estendeu por 40 anos e cerca de 150 filmes como realizadora e montadora.

Pioneira do vídeo, Carole Roussopoulos se lança nesse meio ainda sem “escola, nem passado, nem história”[2] no final dos anos 1960, engajando-se em várias lutas, de maneira cada vez mais diversa e inclusiva:[3] anti-imperialistas, homossexuais, operárias e,  especialmente, feministas. E se, em seu discurso, ela desloca a dimensão estética para o segundo plano (assim como não se reivindica artista, tampouco cineasta, mas antes “técnica” ou “escrivã pública”), nada disso vem como afetação ou desprezo pela forma. O trabalho demonstra, antes, que com essa então nova ferramenta havia uma forma a ser inventada. E é justamente o que ela faria, no contexto das práticas coletivas que logo se multiplicaram e das quais sua obra, sobretudo nos anos 1970, foi parte.

Carole Roussopoulos empunhava a câmera de maneira ágil e intuitiva[4], guiada por uma atenção aguda à palavra — situada e posicionada  de quem é filmado, e que se expressaria frequentemente nos filmes em sua quase inteireza. Dá-se tempo, assim, para que pensamento e argumento sejam elaborados em cena, muitas vezes sem cortes, nunca através de comentários em voz over. A energia, a cólera e a alegria se tornam de fato efetivas para a luta, na medida em que se aguça o sentido de urgência e ocasião, e “estar exatamente ali onde sopra a história, onde nascem as fagulhas que inflamarão os campos, saber observar as chamas de tal modo que elas adentrem o quadro no momento oportuno, requer uma capacidade de análise ímpar da qual Carole e Paul Roussopoulos[5] se mostraram capazes durante décadas de ativismo com as imagens.”[6]

Com o novo meio, novos modos de registrar a palavra do outro. E Carole Roussopoulos irá considerar que as imagens e sons (“essas fatias de concentração ou de verdade”[7]) pertencem a quem é filmado, não a quem filma. Uma ética da confiança é criada, o que, no caso da realizadora, significava sempre mostrar as imagens ao sujeito filmado, apagando se não estivessem de acordo. O que nunca impediu que a força das palavras irrompesse em cena, e o vídeo portátil se afirmaria “como uma ferramenta particularmente adaptada para desbloquear e liberar as palavras das mulheres, até então abafadas, de modo a despertar e amplificar ‘aquilo que existe de incontrolável, de subversivo […] quando as pessoas falam em seu nome próprio’”.[8]

Agir depressa diante dos acontecimentos prestes a eclodir ou em curso, mas também contribuir “para outras realizações feministas menos diretamente ancoradas em uma atualidade imediata e notáveis pela sua inventividade formal, humor e impertinência”[9]  é o que faz Carole Roussopoulos sobretudo nas produções realizadas no seio do coletivo Les Insoumuses, “As Insubmusas”.

Era também preciso ir além do registro da imagem, e “sobretudo, ensinar a captá-la, a utilizá-la, e dar-lhe os meios de se fazer escutar”[10]. Essa ideia levaria Carole Roussopoulos a atuar em outras frentes além da produção, dedicando-se em particular à formação de militantes e movimentos, da França e do exterior, para o uso do vídeo como instrumento de luta. Ela se dedicaria, ainda, à conservação e difusão de filmes (logo, da história), criando em 1982, junto a Delphine Seyrig e Iona Wieder, o primeiro centro de preservação de uma memória audiovisual de mulheres, o Centro Audiovisual Simone de Beauvoir. Mas, antes mesmo da criação do centro, Carole Roussopoulos já lançava mão de maneiras alternativas e independentes de circulação, como a exibição regular em mercados, com o acompanhamento musical de Brigitte Fontaine e Julie Dassin.[11]

Com esse tão breve quanto significativo recorte do trabalho de Carole Roussopoulos, voltado para a produção dos anos 1970, o FestCurtasBH procura compartilhar um pouco dessa obra imensa, dar-lhe visibilidade, pensá-la com os olhos de hoje, sem, contudo, negligenciar seu contexto. Em um momento que apresenta renovadas e fundamentais questões para o campo das lutas, a pertinência de trazer à tona essa obra se reforça, com a necessidade de se pensar historicamente os processos de militância em sua relação com as imagens. Uma obra que nos faz perguntar sobre as razões que a fizeram levar tanto tempo até começar a ganhar o recente e crescente reconhecimento. O que não vem sem novos desafios e contradições, como aquele de singularizar a autoria num contexto que foi e se reivindicou, em grande medida, coletivo. O uso do vídeo, a militância e o fato de se tratar de uma realizadora (e ainda abertamente feminista) não parecem aspectos menores entre as razões dessa retomada tardia.

Contra-informação, intervenção, mobilização, diversão. Se o último termo parece à primeira vista destoar dos demais, Carole Roussopoulos demonstra de forma inequívoca em sua obra que luta e alegria podem ir de par como forças políticas de subversão.

* * * 

A realização desta mostra não teria sido possível sem a contribuição fundamental de várias mulheres.

Teve participação central a pesquisadora e professora Hélène Fleckinger, que colaborou na programação, propondo a organização dos filmes em ordem cronológica e por títulos que retomam slogans do período: Corra camarada, o velho mundo está atrás de você (Cours camarade, le vieux monde est derrière toi, slogan de 68), Não me liberte, eu cuido disso (Ne me libère pas, je m’en charge, slogan feminista) e É com o vídeo que nós nos narraremos (C’est avec la vidéo que nous nous raconteronsslogan do vídeo). Hélène Fleckinger contribuiu ainda com um ensaio de fôlego que apresenta a obra de Carole Roussopoulos em relação ao recorte da mostra; com a permissão de publicação da excelente entrevista que realizou com a cineasta/videasta em 2007; e com uma conferência online gravada especialmente para a mostra.

A curadora e pesquisadora Nicole Brenez, amiga querida do FestCurtasBH desde sua marcante participação em 2013, contribuiu apontando caminhos e permitindo a publicação de seu primoroso texto da mostra que programou em 2007, na Cinemateca Francesa, dedicada à Carole Roussopoulos, e que constituiu uma das primeiras iniciativas de reconhecimento da envergadura desse trabalho. O texto foi atualizado e republicado no livro Manifestations: écrits politiques sur le cinéma et autres arts filmiques, lançado em 2020 por Nicole Brenez.

Jackie Buet, diretora e co-fundadora do Festival International de Films de Femmes — o primeiro e mais antigo festival do mundo dedicado ao cinema de mulheres —, nos cedeu para exibição a “Lição de cinema”, que realizou em 2000 com Carole Roussopoulos, um dos raros documentos audiovisuais em que a realizadora compartilha suas questões e processos. Jackie Buet contribuiu também com uma conversa gravada em que conta um pouco da trajetória do Festival e da relação deste com Carole Roussopoulos.

Um conjunto de mulheres admiráveis contribuiu com a seção Fotogramas Comentados (inspirada numa experimentação que a Revista Devires/UFMG traz em suas edições),  contemplando os oito filmes da mostra em contribuições valiosas que ressituam as obras numa discussão do presente. São elas, pela ordem dos filmes: Lorenna Rocha, Carol Almeida, Patrícia Machado, Ingá, Julia Fagioli, Carla Italiano e Camila Vieira.

Serão realizados, ainda no contexto da mostra, dois debates online com curadoras, pesquisadoras e críticas com trabalhos notáveis em suas respectivas atuações. O primeiro, O corpo é um campo de batalha (título que se inspira na obra quase homônima mda artista Barbara Kruger) conta com a participação de Ingá, Lorenna Rocha, Rayanne Layssa e Roberta Veiga (mediadora). O segundo, intitulado Cinema militante de mulheres, com mulheres, conta com Amaranta César, Carla Maia, Patrícia Machado e Glaura Cardoso Vale (mediadora).

Agradecemos ainda ao Centro Audiovisual Simone de Beauvoir, que dá continuidade ao legado de suas fundadoras e distribui a obra de Carole Roussopoulos.


[1] Cf. Entrevista com Carole Roussopoulos – Uma revolução do olhar, por Hélène Fleckinger. Tradução: Luís Flores (catálogo 22º FestCurtasBH).

[2] Idem.
[3] Cf.  SAVIRÓN, Mónica. In: The very eye of the night: Carole Roussopoulos, por Mónica Savirón. Disponível em:  < https://mubi.com/pt/note book/posts/the-very-eye-of-night-carole-roussopoulos>. Acesso em: 16/10/2020
[4] Idem.
[5] Paul Roussopoulos foi companheiro de vida e de luta de Carole.
[6] Cf. Carole Roussopoulos, gigante do cinema político, por Nicole Brenez, tradução Luís Flores (catálogo 22º FestCurtasBH).
[7]Cf. Entrevista com Carole Roussopoulos – Uma revolução do olhar, por Hélène Fleckinger. Tradução: Luís Flores (catálogo 22º FestCurtasBH).
[8]Cf.  Carole Roussopoulos, videasta dos primeiros tempos e feminista, por Hélène Fleckinger, tradução Marina Romagnoli Bethonico (catálogo 22º FestCurtasBH).
[9]  Idem.
[10] Cf. Carole Roussopoulos, gigante do cinema político, por Nicole Brenez, tradução Luís Flores (catálogo 22º FestCurtasBH).
[11] Cf.  Carole Roussopoulos, videasta dos primeiros tempos e feminista, por Hélène Fleckinger, tradução Marina Romagnoli Bethonico (catálogo 22º FestCurtasBH).