Em um momento de reconfiguração cultural das dinâmicas sociais, raciais, de gênero e sexualidade, torna-se urgente pensar também a crítica de cinema em perspectivas múltiplas e localizadas. Perspectivas que fomentem a formação de novos públicos e a ampliação do repertório canônico. Abordar os vários lugares de fala dos filmes, da recepção e da crítica deve ser uma prática do incentivo à observação e à escuta – e não do silenciamento dos debates. Mais do que apenas um enfoque temático, o convite feito pelos encontros do Corpo Crítico 2019 será o de perceber, nos filmes, como conteúdo e forma complementam-se e articulam-se. 

Essas articulações podem despertar uma série de questionamentos: como são trabalhados a focalização, os pontos de vistas e os enquadramentos das narrativas? Como representação e representatividade podem ser pensadas para além da visibilidade? Quais os tensionamentos possíveis entre opacidade e transparência nos discursos políticos dos filmes? Como os gêneros narrativos (e as suas subversões) contextualizam e/ou contestam ideologias e visões de mundo dadas? Mais do que responder a essas questões, propomos o exercício coletivo de pensar com elas, por meio da elaboração crítica em torno dos filmes exibidos no Festival.

Se historicamente esse exercício de reflexão analítica feito por um grupo identitário localizado – em geral homens, brancos, intelectuais, de classes médias e altas – reinvindicou-se como universal, um dos desafios da atualidade é o de ressituar o fazer crítico, assumindo os seus locais de enunciação, pontos de vistas e construções de mundo. Um desafio que será pensado coletivamente durante os encontros do Corpo Crítico do FestCurtas BH 2019.

(por Kênia Freitas – crítica tutora da segunda edição do Corpo Crítico do 21ºFestCurtasBH)
 

 

 

A Felicidade Delas, de Carol Rodrigues

por Larissa Muniz

O andar livre das mulheres, especialmente das mulheres negras, é condenado. As ruas, espaços de circulação teoricamente fluidos, no qual a vida deveria correr sem censura, estão cercadas por bombas, homens violentos e motores secularmente estabelecidos que se movimentam como novos. Quadro: motos enfileiradas, com faróis vermelhos acesos e um rosnar ameaçador. (…)

Aparatar Num Não-Lugar

por Duda Gambogi

Em um mundo de fluxos acelerados, as estações se tornam mecas. Construções futuristas de azulejos e aço inox, simbolizam o I.D.H. dos países que as abrigam e têm a imponência proporcional ao tamanho dos espaços vazios e à imaculação das paredes. Quando inseridos nestes projetos arquitetônicos e de vigilância, os (…)

Cidades submersas

por Pedro Rena

Sobre os filmes da sessão Minas 01 Nove Águas, Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, Como se o céu fosse oceano   Renascerão as cidades submersas? Os homens [e as mulheres] submersos — voltarão? “Mundo Grande”, Carlos Drummond de Andrade frame de “Como se o Céu Fosse Oceano” (…)

Do que são feitos os incêndios?

por Duda Gambogi

Não foi na noite que os vaga-lumes desapareceram, com efeito. Quando a noite é mais profunda, somos capazes de captar o mínimo clarão, e é a própria expiração da luz que nos é ainda mais visível em seu rastro, ainda que tênue. (DIDI-HUBERMAN, 2011, p. 30) O cinema ilumina determinadas (…)

Filhas de Lavadeiras: Um filme sobre a força da união das mulheres negras

por Arthur Arantes Souza

O que une a história das mulheres negras brasileiras? Essa é a pergunta que ficou em minha cabeça após assistir o documentário “Filhas de Lavadeiras”, de Edileuza de Souza, de quem já conhecia um pouco da carreira como pesquisadora através de sua tese de doutoramento “Cinema na panela de barro: (…)

No fracasso das relações cotidianas, a negritude há de nos salvar?

por Gabriel Araújo

Competitiva Brasil – Programa 2 Ronda, de Mauricio Battistuci e Francisco Miguez (SP, 2019) A Felicidade Delas, de Carol Rodrigues (SP, 2019); Estranho Animal, de Arthur B. Senra (MG/DF, 2019) Negrum3, de Diego Paulino (SP,2018) Uma espécie de falência parecia guiar a maioria dos filmes exibidos no segundo programa da (…)

Um pacto para falar (e ouvir) sobre a violência

por Gabriel Araújo

Uma criança estava sentada do lado de fora do Banco Itaú hoje, em pleno centro de Belo Horizonte. Carregava uma caixa de balas de hortelã na mão, encarava os olhos de todos que entravam ou saíam dos caixas e tentava sua venda. “Compra uma balinha pra me ajudar, moço”. “Compra (…)