De tão preto é azul! Sobre Noir Blue: deslocamentos de uma dança (de Ana Pi, 2017)

por Larissa Muniz

“Experiência que atravesso de forma solitária mas, acompanhada de uma câmera e um lápis, posso compartilhar. Esse continente que é uma incógnita para nós. Categorias de dança que têm cor são negras: uma dança azul de tão preta. Performance é o espaço de arreganhar. Aprendi a falar devagar porque a maior parte do tempo era estrangeira. É meio psicografado esse trabalho, um filme que queria nascer. Este filme foi feito de forma independente — não só pelo dinheiro, mas pela liberdade. Uma coisa livre que a gente preta não tem direito. Um filme de pessoas que conheço e não conheço, mas sinto.”

Perdoem os fragmentos e a transcrição incompleta, mas minha caneta não se moveu rápido o suficiente para contemplar a fala curta e doce de Ana Pi, discorrendo sobre seu filme, a África, o corpo da mulher negra, a apresentação. Depois de uma sessão alucinante composta apenas por diretoras (além de Ana Pi, Juliana Rojas e Nathália Tereza), ocupada por corpos instigantes, pra dizer o mínimo, ouço novamente a voz suave da diretora, performer, montadora, narradora e filmadora. Dessa vez a voz é extra-fílmica e, diferente da condição da imagem que foi do cinema, vejo ela ali, bem presente. Conto isso porque, apesar do impacto imediato de Noir Blue sobre mim, as falas de sua criadora também ecoam muito depois da sessão e me ajudam a remontar o filme que transborda sua subjetividade linda e preta.

Ao responder que se apropria de uma expressão racista — a ideia de que a pele negra às vezes é tão escura que parece azul — para transformar sua dança em pura negritude, Ana Pi reverte uma lógica inerente ao sistema hegemônico e, em detrimento de seguir convenções cinematográficas (lembrando que esse nem era o intuito da obra), se permite inscrever na imagem, extravasar seu corpo e seus anseios, suas angústias e pulsões artísticas. Em seus movimentos, no balançar suave do azul vibrante, o ambiente parece abrigar seu corpo de forma muito natural e acolhedora, e também a sala de cinema o faz, capturada pela atmosfera inebriante do filme. É uma experiência de sentir esse corpo mover de uma maneira diferente, uma performance esquisita e poética, que parece sair das entranhas para dar a ver o preto, o feminino, o humano. Movimentos ora rápidos, ora lentos: um braço que desce e passa a perna, uma perna que sobe lentamente, uma silhueta que balança com o vento, uma coluna que se curva na areia de África e, em meio ao amarelo-bege, suavemente monta seu turbante — também azul de tão preto. A dança da fertilidade e da cura, como ela narra.

Um corpo pulsante. Uma voz incrivelmente potente em seu jeito de falar devagar, saboreando cada palavra, deixando sua reverberação esfacelar para depois voltar lentamente. Essa voz aveludada que diz tantas verdades pessoais e, ao mesmo tempo, tão aplicáveis a um universo inteiro de pessoas, de visões de mundo, de cosmologia, de humanidade. Uma voz que provoca justamente pela maciez e que, muito embora as implicações de suas palavras sejam duras — o racismo que atravessa e limita esses corpos roubados de sua matriz africana —, permitem uma abertura para absorver a delicadeza e pensar “caramba”.

Se procuro definições para Noir Blue, inevitavelmente, caio em seu próprio título: é um filme de cores, sobre cores. Das luzes abstratas do urbano à areia africana que lembra o bairro de infância, do ritmo latejante à completa ausência de imagem, Ana Pi entrelaça a cor do ambiente com a cor da história apagada, a cor da pele negra com a cor primária do azul. “Umas coisas eu digo, outras vocês têm que imaginar”. Na imaginação oriunda das cores que vibram, viajo com Ana e sigo seu ritmo, totalmente hipnotizada pelo relato, pela dança, pelo ambiente árido, pela montagem oscilante que sobrepõe sua figura como se composta de vários corpos num só, reunindo diferentes negritudes e origens num todo complexo.  Chamo atenção especial à tela preta com legendas azuis em francês que me deixa à espera do corpo de Ana e seu pano azul iluminando a cena, mas, simultaneamente, escancara a imagem completa que essa tela “vazia” dá a ver: é na ausência de composição, mise-en-scène, profundidade de campo ou o que quer que seja que o preto grita ainda mais alto e evidencia sua história atroz de não-imagens. É isso que está em jogo na afirmação rítmica do Preto. Preto. Preto. Preto. Preto. e de nomes africanos que eu não saberia reproduzir aqui, intercalada com imagens de África e pessoas negras, juntamente com uma tela vazia — também preta.

Volto ao começo. A voz — inicialmente carente de rosto ou corpo — narra uma imagem, na qual ela está num avião ocupado apenas por pessoas negras e, com isso, entende que não está indo pra um lugar qualquer, mas para a África Subsaariana. Essa cena, recitada com tamanho calor, adquire um tom cinematográfico que as imagens não poderiam possivelmente abrigar. É o pano de fundo, com suas luzes diversas e cintilantes, que me permite sonhar com Ana e tentar imaginar seu olhar emocionado ao estar cercada por seus pares, voltar às suas raízes desconhecidas, não mais ausente de origem (de Angola, Ruanda, Etiópia?) ou desprovida de um futuro pouco preto, mas cercada pela negritude que tanto esperou. É por essa potência de alteridade que acabo lembrando do pano azul e de uma fala da própria Ana após a sessão: as pessoas usam um pano, uma espécie de véu da má fé e, às vezes, a gente precisa tirar esse pano de frente do rosto delas, atravessar esse véu pra fazer elas enxergarem o que não conseguem ou não querem ver. É isto: com seu pano colorido, Noir Blue me ofereceu uma outra poética, um outro olhar e, no final das contas, o azul de tão preto agarrou-se à minha retina e tudo que eu queria era saber mais de Ana Pi.


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida