Do que são feitos os incêndios?

por Duda Gambogi

Não foi na noite que os vaga-lumes desapareceram, com efeito. Quando a noite é mais profunda, somos capazes de captar o mínimo clarão, e é a própria expiração da luz que nos é ainda mais visível em seu rastro, ainda que tênue. (DIDI-HUBERMAN, 2011, p. 30)

O cinema ilumina determinadas formas de existência e apresenta-as em meio ao breu completo. Enquanto durarem, elas serão o único universo possível, a ser contemplado pelos espectadores até o fim, independentemente de seus sentimentos sobre o que veem. O pacto social implícito nas salas inibe a fuga do som e da imagem. E até nos casos em que um se levanta, contrariado, da cadeira, a fuga é incapaz de reverter o contato com a obra.

Em Sete Anos Em Maio, Affonso Uchôa parece entender a potência da dinâmica cinematográfica e se vale tanto do pacto quanto do breu para recontar — e tornar ouvida — a experiência traumática de violência policial que transformou a vida de Fael, ou Rafael dos Santos Rocha. Se as narrativas hegemônicas são exaustivamente iluminadas e divulgadas para ofuscar aquelas marginais e reveladoras da crueldade que sustenta o poder, o filme abraça, na imagem, a obscuridade que envolve a história de Fael e ilumina-a com a luz mais primitiva e magnética que existe — o fogo.

A noite predominante, a ser iluminada com a chama, está presente em um conjunto de filmes recentes e distópicos que denunciam a violência do Estado no Brasil, como Tremor Iê (Elena Meirelles e Lívia de Paiva, 2018), Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2014) e Os Sonâmbulos (Tiago Mata Machado, 2018) e se faz onipresente em Sete Anos. Além de agir sobre a noite, o fogo parece o único tipo de luz que faz jus às existências marginais que sobrevivem no escuro e brilham, apesar de tudo — os vagalumes sobre os quais o filósofo Didi-Huberman discorre no livro-fonte da citação que inaugura e se espalha por essas palavras.

Assim como o intervalo entre a violência e a imagem viva e recuperada de Fael, o tempo de Sete Anos é generoso e permite ao fogo que cresça e perdure, ainda que intermitente ou preso em outras luzes. É através do brilho fraco e alaranjado dos postes que Fael emerge, primeiramente, como silhueta. A luz se intensifica e muda de forma, na lanterna que um grupo de garotos de periferia usa para explorar um baú precioso, cheio de armas brancas que, em um dos países mais violentos do mundo, conferem poder instantâneo a quem os porta. Munidos dele, os garotos assumem o lugar dos policiais, recriando a tortura (impossível de ser reencenada) que, logo descobrimos, foi sofrida por Fael. É no ápice da fogueira que o protagonista relata a crueldade inexplicável, dura demais para ser exposta à plena luz. A verdade vem à tona, transpira em seu corpo, o único que ocupa, gigante, a tela e o escuro. A força ancestral do relato é resgatada e elevada pelo cinema e é através dela, mais do que na reencenação, que o horror do real nos atinge no osso.

Enquanto documentário, Sete Anos não se propõe a documentar a revolta (que ainda não existe, à altura da causa), ou encontrar soluções para as atrocidades que denuncia. Não obstante, traz ações performáticas de resposta à ela, que se assemelham de forma intrigante com aquelas propostas pelo conjunto de filmes-com-fogo. Assim como acontece com a presença da chama, que evoca a potência de um incêndio transformador que nunca se realiza, as ações acontecem por vias simbólicas ou se concretizam alegoricamente na diegese dos filmes.

Nessa cinematografia, não há um embate, mas uma dicotomia entre a representação da crueldade do real e a performance que a confronta indiretamente. Entre um pólo e outro, transita o corpo das personagens que, mesmo perseguido, violentado, segue vivo. Enquanto o país apodrece, o corpo se recupera, com a cicatriz que não deixa esquecer do que passou. Ele se movimenta mais do que nunca, por necessidade e pelo desejo de ser. O triunfo dessas narrativas se torna, então, a própria vida, a existência-resistência de corpos que, apesar de seguirem desaparecendo, permanecem acesos, vibrantes e se juntando com os seus (e aqui volto a Didi-Huberman, que descreve o movimento dos vagalumes como uma “dança do desejo formando comunidade”).

Sete Anos faz uma existência aparecer no escuro, ação essencial do cinema, com um domínio e uma magia particulares e, na tarefa de tornar ouvido o inenarrável, repensa as convenções do meio. Com estratégias particulares, se coloca a serviço de nos relembrar, mais uma vez, que a distopia é atual e aumenta ainda mais a demanda por um imaginário que triunfe sobre o horror, por incêndios de verdade ou qualquer ação factível. É difícil saber se o cinema, como fruto do seu tempo e perseguido pelo mesmo Estado, é capaz de lançar chamas, para além de acender tochas. Não sei nem mesmo se a cobrança é justa, mas dentre todos os universos que podemos extrair da realidade, tenho a certeza de vários inexplorados, nos quais é possível confrontar o horror frontalmente, derrotá-lo, até. Por enquanto, saímos da sala com a ferida ardendo e mais sede — uma faísca.


*este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Cinema em Perspectiva: Reconfigurações do Fazer Crítico, ministrado pela crítica Kênia Freitas