Eu sou cinema: Sobre I Am Sheriff (de Teboho Edkins, 2017)

por Luís Felipe Flores

Que tipo de compreensão um filme pode abrir entre sujeitos que seja capaz de acolher e de abrigar diferenças, sem recair, para isso, em uma via pacificada da representação (seja ela documentário ou ficção)? Como inscrever essa compreensão na imagem, sem deixar que as próprias operações de cinema (filmagem, montagem, seleção) lapidem, na própria constituição da obra, as tensões potenciais da realidade? I Am Sheriff nos oferece uma resposta aparentemente simples a essas perguntas que, no fundo, não são facilmente solúveis. O curta-metragem, que se propõe a acompanhar a personagem enunciada pelo título em uma série de pequenos encontros no Lesoto, seu país natal, articula uma interessante “dobra” formal para fundar um duplo universo de existência comum: aquele das pessoas que habitam a comunidade, surgido na espontaneidade das conversas filmadas, e aquele da representação fílmica, que apresenta o tempo todo como um processo de descoberta e de desconstrução.

A estratégia de fabricação narrativa em I Am Sheriff passa pela apresentação de situações nas quais a identidade da personagem central é colocada em questão em meio a um núcleo comum. (Há alguns anos atrás – 10, 20? – o termo fetiche para designar esse tipo de obra, no qual o diretor dispararia um movimento inicial, para produzir acontecimentos indeterminados, era filme-dispositivo). Falamos, sobretudo, das exibições de cinema que reúnem Sheriff e seus conterrâneos, quando a discussão registrada parte do visionamento (em comum) de um filme anterior, um filme no qual ela própria discute suas experiências pessoais com figuras de importância estratégica para a vida social, como sua mãe ou o padre progressista.

Do filme exibido – o filme dentro do filme – só vemos determinados trechos esparsos, mas esses trechos já são suficientes para romper com uma idealização da experiência “indomesticada” no contexto da representação. I Am Sheriff, fica claro, assume com toda a intensidade sua vontade de fazer cinema, de construir um universo comum que possa ser partilhado por muitos olhares, composto por vozes diversas. Para dizer de outro modo, sua força de mediação, que é também uma capacidade de imaginação. Assim, embora a palavra seja o principal substrato sensível para a materialização desse gesto fílmico, com suas idas e vindas, suas maneiras particulares de vibrar e de ecoar em cada corpo, de produzir efeitos variados nos espaços, subsiste na imagem, talvez de maneira mais sutil, uma refinada consciência cinematográfica dessa mediação.

É o caso da atenção que a câmera dedica para as trocas de olhares entre os participantes das reuniões, e, de maneira especial, para aqueles olhares que se voltam para Sheriff – afinal, não é esse curta em última instância um filme sobre o ato de olhar e ser olhado, sobre o processo, que se pretende recíproco, de devolução de um olhar? De maneira menos direta, é o corte que leva da tela na sessão de cinema noturna, na comunidade, para o interior desse filme que está sendo exibido, no plano em que a protagonista chega à cavalo para conversar com a mãe. Por um momento, a linha mais documentária que parecia conduzir o curta até então – mas que, no fundo, não era necessariamente tão demarcada assim – para um fragmento mais forte de impulso ficcional. A imagem se transforma, de cinema em cinema, e essa transformação abre espaço para toda uma energia de invenção e afirmação da imagem que se reflete no próprio gesto de auto-enunciação indicado no título.

Impossível não mencionar, portanto, com evidente destaque, a brilhante consciência de Sheriff para a fabricação de sua própria aparição – novamente, redobrada, nas pequenas assembleias, formadas, na maioria, por mulheres, e na elaboração da mise en scène, se assim quisermos, sua capacidade de reter e direcionar de maneira dialógica os elementos sensíveis envolvidos no filme, os corpos, olhares, palavras que atravessam o espaço observado pela câmera.

O que I Am Sheriff realiza, de maneira exemplar, é a constituição de um espaço em comum pela via da organização sensível da palavra e da imagem (a via estética, mas não apenas) que reflita, em diferentes medidas, a constituição de um espaço comum no seio daquela comunidade, com a questão evidente do endereçamento, da auto-enunciação, do reconhecimento de uma existência individual (a via política, mas não apenas), supostamente desviante, no seio de uma estrutura comunitária tradicional. É somente por esse trabalho, que envolve uma pluralidade de diferenças e subjetividades, que o protagonista pode afirmar sua possibilidade de existir, de continuar, de mostrar para as outras pessoas aquela imagem que ele próprio constrói ou construiu para si. Afinal, não era esse um dos sentidos possíveis para isso que nos acostumamos a chamar de cinema?


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida