Os corpos que faltam

por Claryssa Almeida

É difícil a empreitada de um registro biográfico que se permita esvair pelas frestas do seu estatuto documental e seguir correnteza abaixo com o fluxo imagético. Inocentes dirigido por Douglas Soares investe nessa missão. Ao traçar uma possível trajetória do fotógrafo Alair Gomes, esforça-se para forjar, através do trabalho do artista, uma narrativa imagética.

Para tanto, elege um dispositivo que helicoidalmente atravessa os caminhos das produções cinematográficas: o voyeurismo. A escolha desse dispositivo que marola de tempos e tempos pelas telas, vem perguntar por esses olhos que espionam do escuro, as janelas que se abrem para vidas possíveis. Olhos marejados de desejo. Contemplação que só é possível por um enquadramento e pela necessária distância entre observador e objeto.

Com essa fórmula debaixo do braço e a proposta de tratar de um artista que, assumidamente, contemplava de sua janela os belos corpos masculinos que transitam pela praia e os fotografava sem esconder o incendioso olhar com que os observava, o filme segue.

Importante notar que a localização desse ponto de vista não é trivial. Quando se dispõe de uma janela que encara a praia, devemos nos atentar para quem é esse sujeito que olha e, sobretudo, de onde olha. Ele mira corpos masculinos fortes e viris. Como reflexo, o filme se torna um caleidoscópico de corpos apolíneos atravessados por cortes precisos guiados por uma montagem muito acertada.

Aportadas num ritmo fluido, enquadradas por um formalismo impecável e mirando corpos de formas gregas, as imagens me convidam pra uma dança no imaginário da beleza hegemônica. E eu danço. E danço. Quando meus pés já estão cansados, torço por uma rajada, que, messianicamente, venha trazer outros corpos. Aqueles desgraçados pela história, aqueles que nunca são convidados a dançar. Mas esses outros corpos não vêm.

Num último suspiro, os apolos, agoras confinados numa sala escura são perseguidos pelas sombras de mãos belamente orquestradas pela direção e fotografia do filme. Como boas sombras que são, as mãos enfrentam a impossibilidade do toque. Transitam pelos corpos numa tentativa insólita de gozo. Nesse momento, medito sobre a sacralidade apolínea e sua separação natural(izada) do resto. No entanto, um corte brusco interrompe minhas divagações, impedindo que uma boca, agora de carne, encontre um dos paus santificados. Era tudo só dança do desejo, mesmo que homoerótico, ainda assim embaladas pelos ecos do imaginário coletivo mesmo, que propõe os mesmos passos, que saúda os mesmos corpos.


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida