SER VENTO Texto sobre o filme NOIRBLUE: deslocamentos de uma dança, de Ana Pi (2017)

por Maria Trika

Vento.

Nos acaricia a pele, arrepiando os cabelos
– das bochechas aos pés.
Sentimos-o,
sem, no entanto, aprendê-lo.
Escutamos seu sussurro.
Nosso corpo é
   tocado
      atravessado
   alterado
transformado pela matéria, invisível (?), presente.

O filme começa

saudando e agradecendo suas ancestrais.

Tela preta.

NOIRBLUE

Surge uma voz.

  Escuta.

Aos poucos, surgem luzes coloridas
A voz começa a dizer sobre a viagem
A narração nos leva a sobrepor as imagens da tela com as da cabeça.

“Meu compromisso é estar”
aparece
a imagem
o corpo de uma mulher negra,
coberta por um véu
que se comunica (traduzindo?) o vento
“esse véu me revela o que existe escondido na história que me contaram.”

O corpo, integrando-se ao espaço,
dança
          de guerra
          de fertilidade
          de cura
O vento
dança
          com o véu
          com a ausência
          com o tempo -“porque a gente tá no futuro”.

dança-espaço -signature

Corpos que assinam sua presença-existência-imagem na tela.
Que olham e olham de volta.1
Criando uma contra imagem,
“como uma forma de conhecer o presente e inventar o futuro.”2,
citando bell hooks.

O filme termina, pedindo benção também para as pessoas mais novas, que ainda estão por vir.

NOIRBLUE: deslocamentos de uma dança
curta-metragem3 que usa a
linguagem do vento,
para dizer
do tempo e seu atravessamento
no (s) corpo (s) ,
principalmente, daqueles cuja a imagem é demarcada pela
ausência e
apagamento.

Deslocando
        o olhos
        a linguagem habitual dos festivais
        o corpo

        a imagem
        a ausência

“Talvez haja já um primeiro ponto aqui: brisa. No sentido do que pode o cinema: ser brisa.”4
ou, no caso de Noir, ser vento.

 “Quando o invisível torna-se visível o olho demora a acostumar.”5

1“Ao olharem e olharem de volta, as mulheres negras se envolvem em um processo por meio do qual vemos nossa história como uma contramemória, usando-a como uma forma de conhecer o presente e inventar o futuro.” Bell Hooks em O Olhar Opositivo – a espectadora negra.
2https://foradequadro.com/2017/05/26/o-olhar-opositivo-a-espectadora-negra-por-bell-hooks/
3Curta-metragem onde a coragem já começa na minutagem (27′).
4Potente pontuação de Juliano Gomes no texto Carta ao Heitor (ou Desculpe a bagunça ou Ao mesmo tempo), publicado no site da Cinética (http://revistacinetica.com.br/nova/carta-ao-heitor-ou-desculpe-a-bagunca-ou-ao-mesmo-tempo/)
5Assim como essa, algumas frases do filme foram reproduzidas.


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida