Uma imagem de pensamento sobre Maré, de Amaranta César

por Lídia Ars Mello

O que vou escrever é uma imagem de pensamento sobre este filme. Não esperem um meio e fim definidos ou linearidade, mas, um navegar sensível e significativo, e quem sabe um texto crítico.

Quando acabei de assistir Maré no Festival Internacional de curtas-metragens de BH – que este ano acolhe a temática da negritude, do ser negro; e pensei: escrever ou não sobre estas imagens? Durante o tempo em que eu estava assistindo o filme fiquei perturbada com o apuro formal das imagens, algo que para mim sempre foi atraente num filme, dado meu olhar flertar com cinematografias que primam por uma estética conceitual e formal. E não que eu pense que um filme como gesto político, que o cinema engajado e que faz referências as minorias, não possam ser formais ou que não se possa criar um agenciamento entre estética e política ou “pensar o estético a partir do político”, para usar palavras roubadas da própria diretora. Me coloquei a pensar também o que uma mulher baiana, branca, acadêmica quis provocar quando decide realizar este filme, e me dispus atentar a sua mirada e enquadres que cria na tela do cinema, para falar de uma comunidade negra baiana ilhada do mundo.

Uma cena.
Enquadrada em primeiro plano, uma mulher negra idosa acende um cachimbo. A câmera registra o retrato do seu rosto e rastros de tempo que ela carrega consigo.

 

O filme escorre na tela e pouco a pouco me dou conta que esta senhora vive numa comunidade rural no interior do Brasil.

Como a diretora do filme, reside e trabalha na cidade de Cachoeira no interior da Bahia, antes de ver os créditos do filme, isso pode ser uma pista que ela filmou no entorno deste território que tem abrigado sua vida no tempo atual.  Território-imagem que deixa entrever que a senhora idosa negra da cena mencionada, e também outras mulheres que aparecem no filme, habitam numa comunidade de remanescentes de quilombolas do recôncavo baiano.

No centro da imagem fílmica e também pelas bordas, há indícios de que o peso de uma herança cultural africana e atravessamentos históricos violentos de séculos querem saltar da boca e dos corpos destas mulheres-personagens. Contudo, a qualidade e perfeição estética dos planos cuidadosamente bem compostos parecem sobressair sobre as tensões internas que podem surgir para o espectador, e isso se coloca como certa barreira impedindo que as tensões venham à tona na tela. Se você não é um espectador atento pode ficar encantado pela harmonia visual do filme e pouco ver para além do que a imagem pode mostrar. E isso foi algo que muito me incomodou no filme.

O universo do filme permeia travessias sociais negras históricas, que muitos ainda não se interessam ou se importam de ver na tela do cinema, e para estes não está em jogo apreender o intolerável de uma situação ou condição dada, para eles os negros podem continuar à margem da sociedade.

A um espectador desatento, se você perguntasse sobre o que é o filme, ele poderia dizer que é um filme doc-ficcional bonito, lento e silencioso sobre a vida de mulheres negras que vivem num isolado lugarejo do Brasil. Para mim, a estetização da realidade, nem sempre cabe em certo universo que carrega consigo um fardo pesado demais para esse primor.

O universo trágico e carregado de tensões, cenário em que o filme se passa, realidade das mulheres nele abordada, me parece distanciar da composição perfeita da imagem, e a falta de ação – quase imobilidade das mulheres-personagens, silenciosas, parece se espelhar no ritmo dos planos lentos.

Eu creio na ideia de que o cinema deve ser não uma imagem do mundo, mas o mundo em si, com toda a problemática que ele carrega. Depois de ver o filme fui para a casa e fiz um exercício de pensamento sobre o filme, fui em busca da abertura de um novo campo de possíveis para captar condições outras de percepção, captar o exprimível de uma situação que pode irromper a partir do filme. Foi preciso então, que eu me deslocasse da imagem formal que tanto seduz, para adentrar no interior dos planos. E foi a cena do filme que mais me afeta, que me auxiliou a romper a barreira estética. A cena a qual me refiro é da mulher de meia idade, pobre e preta, que está pilando algo, talvez milho, ela dirige o olhar para a diretora (fora de campo) e para a câmera, e depois para o espectador.

Ela nos relata: “Dizem que a escravidão já acabou, quem disse que acabou? Está aí na cara, só não ver quem não quer”, e completa dizendo que sempre insiste com as filhas para irem à escola, porque não deseja que elas sirvam aos brancos de Salvador. Esta voz quer ser ouvida e nos permite acessar de imediato a violência do passado colonial que a assombra, e provoca nossa reação diante da sua dor, criando assim uma tensão entre a imagem-cinema e a imagem-realidade.

Não custa lembrar o óbvio: Salvador é uma grande cidade, com um povo em sua maioria de origem africana e que por anos e anos foram escravos de europeus e brasileiros brancos, brutalmente maltratados, principalmente, na época que o Brasil era colônia de Portugal. Muitas pessoas negras, infelizmente, ainda continuam sendo agredidas e desrespeitadas.

E é no olhar para esta mulher que vou buscar me concentrar e extrair algo do meu pensamento, porque é este, para mim, o forte gesto sensível e político do filme.

Na voz desta mulher, há um confronto e resistência explícita de um passado, que ela não quer ver repetir para seus filhos no presente de sua vida. Pensando com bell hooks, o que esta mulher deseja é que “seu olhar mude a realidade”, pelo menos de suas filhas, e ela quer ser não objeto do filme, mas sujeito do cinema. No agenciamento maquínico de sua voz com a câmera de cinema, ela rompe a barreira do estético cuidadosamente criado pela diretora. E assim descubro algo, que jazia atrás da perfeição plástica da imagem que desde o início incomodou-me.

Quando as marcas do passado se atualizam no enfrentamento de um tempo e situação que não se quer mais repetir como dor, o presente deve se tornar outro, mesmo frágil, a mulher tenta tomar as rédeas do seu destino. Não que o campo de batalhas tenha se findado para os negros, para esta mulher, as batalhas vão estar aí a todo momento testando sua potência de agir, resistir e ser no tempo. Um tempo que dura e muda, e que ao retornar ainda pode sangrar o pensamento de raízes que ainda ferem o corpo, o coração e os pés. Ainda bem, que estes pés, que devem lutar incessantemente, pelo menos já estão livres das correntes de metal.

Extrair das imagens-cinema o que está no interior delas é tarefa para quem força o pensamento a pensar, para quem se joga num campo de forças, do universo feminino e negro, de mulheres remanescentes de quilombolas. Um universo violento que atravessa corpos, muitos ainda hoje segregados, e que carrega um fardo árduo demais em suas costas, um fardo que também é da sociedade – que é também nosso.

O que pode o cinema? O cinema pode dar a ver estas coisas, que muitos preferem apagar ou fingir que não mais existem. E, nós pensadores ou fabricantes de imagens em movimento, podemos no mínimo aproveitar este privilégio para escrever ou colocar na tela do cinema as situações do passado e do presente que nos atormentam nos tempos atuais, para que no futuro não sejam apagadas ou tenhamos poucos registros imagéticos sobre os males da humanidade que se repetem.

Sim, diria Nietzsche as coisas se repetem indefinidamente na eternidade, mas de modos diferentes responderia Deleuze, outros modos de violência e imagens perturbadoras surgirão, e a partir ou com elas, irão irromper também outros modos de luta e resistência.

O risco de se lançar em busca daquilo que não está dado, e que aumenta a potência de agir, é desafiante e deve ser mais atrativo que a apatia que nos impede de pensar. Em “Espinosa: Filosofia prática”, Deleuze, vai nos lembrar, que enquanto o pensamento for livre, nada estará comprometido, e enquanto deixar de ser, todas as opressões tornam-se igualmente possíveis, e, uma vez realizadas, qualquer ação se torna culpável, e toda a vida ameaçada.

Nas situações vividas pelas mulheres cotidianamente na comunidade negra do quilombo do Vale do Iguape na Bahia, há ainda questões fortes que me tocam, a falta de condições de vida digna das mulheres ali abandonadas pelo poder público e deixadas à margem, mulheres que têm no mangue uma parca fonte de alimento, crustáceos e peixes que saciam sua fome, e que também é parca fonte de renda.

Estas mulheres-personagens se unem num encontro que parece ter sido articulado pela diretora para que ela pudesse realizar o filme – filmar parte da narrativa de vida das mulheres que navegam e acolhem sua proposta, sem talvez muito interferir.  

Há uma cena em que elas caminham pelas ruas de barro e cantam pela noite com velas na mão, num ritual, invocando forças e energia ancestrais, mas a força de agir destas mulheres, no filme e na vida está reduzida. O canto como resistência e pedido de socorro aos ancestrais? A memória atualizada no presente em forma de imagem, uma imagem, aliás, dramática, trágica.

Se por um lado vemos estas mulheres que invocam a força dos antepassados; por outro vemos também o marasmo do cotidiano delas expresso na tela, dados a ver na economia de seus gestos e afetos letárgicos diante da atmosfera incerta de suas vidas, na territorialização do espaço e tempo que abrigam suas vidas. Parece não haver saídas, a estagnação destas mulheres, diante da vida confinada que vivem, é intensificada pela composição dos planos dilatados e ritmo paciente da câmera. Um filme composto ainda por uma montagem mínima/interna dos planos, da opção por não-atores e sons discretos, minimalistas, pelo uso intenso do silêncio – talvez como forma de tensionar o que está no interior da imagem.

Há mais duas cenas do filme que eu gostaria de destacar.

Se a minha memória não me trai – esta mesma mulher da imagem-retrato que citei anteriormente, numa outra cena esta senhora evoca Oxalá pedindo pena e misericórdia de sua vida e de seu povo.  Oxalá é o orixá ligado à criação do mundo e da espécie humana. A mulher roga ao orixá força para resistir o estado existencial em que se encontra, roga saída para sua situação e do seu povo que vive numa condição social limitada, roga auxílio diante da impossibilidade de mudanças reais.

Na talvez mais pictural cena do filme, a cena do barco: um travelling horizontal acompanha as mulheres remando pacientes sobre as águas do rio que tranquilamente escorre. O tempo ali flui passivo, como o movimento da câmera. Mas o que podem esperar estas mulheres, senão confiar na movência própria da vida que é durar e passar. As mulheres se lançam no movimento de criar alianças entre elas e potencializar suas forças, diante do estado pantanoso em que se encontram, na encosta de um mangue, nos resquícios das marés, na lama negra de onde o que emerge de bom é apenas o alimento do qual se nutrem, neste habitat rude que lhes cabe e acolhe, distanciadas, abandonadas pelo mundo.

Haverá saídas? Há no filme entradas múltiplas certamente. Vemos na tela um pensamento cinema criado pela diretora – uma estética imagética harmoniosa, para abordar uma temática social histórica sobre a negritude quilombola. Com uma atenção atenta bergsoniana se consegue rasgar a imagem e entrar no seu interior, para perceber os quadros que compõem a vida destas mulheres negras para além da tela, infelizmente, quadros de dor e violência conservados há anos no atravessamento de seus corpos e existências.


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida