Vislumbres de uma História de Cinema

Exposição

Dia: 31/08/2019 até 29/09/2019Horário: 09h00 às 21h00Café do Palácio das Artes*Já realizado

Os mais de dez anos de criação de cartazes por Clara Moreira somam dezenas de trabalhos, a maior parte reunida nesta retrospectiva. Se cada invenção de uma artista visual alberga histórias secretas, os cartazes de Clara, vistos juntos, evidenciam notórias genealogias, seja de um estilo próprio de arte gráfica, inconfundível no ambiente cinematográfico brasileiro, ou de filmografias centrais ao cinema realizado no país na última década.

Desde o cartaz de Eisenstein, seu primogênito, a artista recifense recupera a tradição poética na concepção de pôsteres, unindo a faculdade de representar filmes à de recriá-los na metamorfose do desenho. Através de confecção recíproca entre design contemporâneo e ressonâncias modernistas, seus trabalhos investem numa vocação visionária do cartaz: em cada um, gestos singulares de cinema transitam por outras dimensões, temperaturas, texturas, mediante o traço, a mancha ou o pontilhado; pelos jogos entre iluminação e opacidade ou entre enquadramento e desenquadramento.

“O filme é como uma entidade viva”, diz Clara, que desenvolve suas imagens numa relação estreita entre experiência fílmica, olhar da cineasta e sua própria cinefilia. Diante de um filme, a artista experimenta ora com figurações mais ou menos realistas — por vezes, partindo de frames, cenas ou motivos —, ora com a abstração, a vibração ou o movimento. Numa pesquisa visual de manifesto gosto artesanal,  Clara aventura-se por abordagens pictóricas distintas, variando entre carvão e nanquim (Muro), pastel seco (Doméstica), pastel oleoso (Permanências), pastéis mistos (O som ao redor), tinta acrílica (Sol alegria), aquarela (Balsa) e, em especial, o minucioso lápis de cor, que risca a maior parte de suas obras, e que destaca suas recorrências artísticas.

Clara costumava desenhar pôsteres para o Cineclube Barravento, de que fazia parte na década de 2000, no Recife, e a passagem aos cartazes de lançamentos acompanhou a eclosão do cinema brasileiro independente da virada do decênio, em particular o de curta-metragem e o pernambucano; logo em seguida, estendeu-se para longas-metragens e produções de outros estados, entre eles Minas Gerais. Um passeio pelas suas criações, que abrangem títulos cujas biografias próprias são em si memoráveis, testemunha formas tão diversas quanto marcantes de cinema, além de indiciar a atuação de mecanismos de financiamento público que então se expandiam, com o florescimento contínuo de universos cinematográficos em variadas regiões do país.

É significativo que este conjunto de obras exponha o protagonismo da artista na gestação da identidade visual de dois festivais de cinema que, nascidos também no final dos anos 2000, tornavam-se centrais ao curso dessas linhagens: a Semana de Cinema (antiga Semana dos Realizadores), no Rio de Janeiro, e o Janela Internacional de Cinema do Recife eventos que, já em suas origens, ideológicas e artísticas, difundiam, junto à crítica e a diversos públicos, uma noção emergente, entusiasmada, de cinema brasileiro independente, bem como seu valor estético, ético, político e produtivo.

Agradecemos ao Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal, que no último mês de abril promoveu uma primeira montagem desta exposição, e onde versão prévia deste texto circulou. Agora em Belo Horizonte, âmago de uma das filmografias basilares destes dez anos de expansão de circuitos e onde Clara residiu durante parte do período , redescobrimos um inspirado relato visual, ou fatia notável de uma história imaginativa do cinema recente realizado no Brasil.

(por Luís Fernando Moura)


Exposição realizada em parceria com GAL Arte & Pesquisa.

Curadoria de Aline Xavier e Laura Barbi.