A Felicidade Delas, de Carol Rodrigues

por Larissa Muniz

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O andar livre das mulheres, especialmente das mulheres negras, é condenado.

As ruas, espaços de circulação teoricamente fluidos, no qual a vida deveria correr sem censura, estão cercadas por bombas, homens violentos e motores secularmente estabelecidos que se movimentam como novos.

Quadro: motos enfileiradas, com faróis vermelhos acesos e um rosnar ameaçador.

Quadro: mulher grita, mulheres gritam.

Quadro: cartazes com frases sobre o direito das mulheres sobre seus corpos.

Do caráter literalmente panfletário ao ensaísmo feminista, A felicidade delas se inicia com o perigo e a imanência de uma explosão que vai tirar a mulherada militante toda da rua. Inicialmente, estamos em uma típica filmagem documental acompanhando uma manifestação, exceto que a imagem talvez esteja controlada e “bonita” demais para as condições precárias de tal contexto.

Em meio às vozes múltiplas das militantes que gritam, o motor do patriarcado cerca a cena. Essa máquina de proporções continentais que opera ainda com vigor – uma ameaça forte que causa o abandono das mulheres ao posto de resistência. Nesse momento, a opressão masculina é bem sucedida e consegue dispersar o laço forte das manifestantes formado num pequeno trecho de resistência urbana.

As mulheres correm, correm porque precisam sobreviver.

É apenas quando uma das duas personagens principais, da qual não sabemos o nome, é cercada por policiais e salva pela segunda mulher, que percebo o filme tomar uma outra direção, menos voltada para um discurso fechado em si mesmo que para uma abertura de possibilidades libertadoras. Portanto: A felicidade delas não é um documentário direto sobre o movimento feminista.

É um filme de amor entre mulheres pretas e militantes, num não-lugar onde a opressão existe somente no extracampo. 

Da rua perigosa, feia, dominada pelo motor machista, caímos numa espécie de corredor/túnel/labirinto. Escuro, neon, sem saída. Um refúgio misterioso contra os policiais que perseguem as mulheres, aquelas que se utilizam de suas vozes, traçam seus sentidos, lutam pela demanda universal do feminismo.

O filme, que nos minutos anteriores era barulho e caos, é tomado pela calmaria entre-guerras. Espaço seguro de recuperação e afeto. As mulheres andam pelo túnel, um subterrâneo inexplorado, com cautela e curiosidade. Elas não trocam uma palavra. Respiram fundo, olham ao redor, percebem a presença uma da outra de forma bastante sensorial. Aqui, é como se pele, olhar e suor fossem sinônimo de palavras, frases inteiras formadas pela vibração dos sentidos. Luz e breu se misturam para revelar apenas partes dessas mulheres sobre as quais não sabemos passado ou futuro. Sabemos apenas de um presente suspenso no tempo e na cidade, onde tudo pode ser redescoberto, reinterpretado, (re)construído. 

É no graffiti, na súbita percepção das mulheres de que elas estão sozinhas num lugar tomado pela arte urbana e marginal, que elas também decidem deixar suas marcas: um desenho de duas mulheres negras se amando.

Elas se afastam da parede e olham a obra.

Criadoras de sentido e espectadoras. Elas precisam se afastar da linguagem para entender e admirar os códigos que criaram, imputar seus significados à imagem que produziram. Elas olham a parede e se olham. São também espectadoras de si mesmas.

A sensualidade do filme, sutilmente colocada até então, aflora a partir daí, como se esse ato de criação artística fosse também um ato de liberdade sensorial, quando as mulheres entram mais e mais no labirinto sem signos pré-determinados. E lá elas se amam.

A câmera acompanha trêmula a ação, bem de perto, como se também não soubesse revelar os elementos do enquadramento, como se não precisasse nomear aquela relação e a presença
intensa das duas mulheres.

Basta cintura, pedaço de mão, pele, boca, saliva.

O filme de militância feminista vira filme de amor. Mas são dois “gêneros” excludentes entre si? Ou na verdade são temáticas inevitavelmente entrecruzadas? Da coletiva à sujeita, das sujeitas ao mundo, o filme passeia pelas fronteiras entre individualidade e coletividade. Ambas feministas, ambas necessárias pra uma sacudida molhada do mundo. Micro e macro, aqui, apenas fazem parte de um todo que quer brincar com os signos e jogá-los na borda para, somente então, se reaproriar deles de acordo com suas demandas.

Sem uma gota d’água, de repente tá tudo molhado.

Corpos, espectadora, diretora, atrizes. A cidade. Tudo molhado.

O mundo externo, antes propriedade dos homens de farda, é agora jogado ao caos da enchente, inundado pelo fluido feminino oriundo do amor entre mulheres. A bomba explodiu e levou a água do corpo para o patriarcado – água que, não tão sutilmente, destrói pra dar vida de novo. Uma vida outra.


*este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Cinema em Perspectiva: Reconfigurações do Fazer Crítico, ministrado pela crítica Kênia Freitas