Cidades submersas

por Pedro Rena

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Sobre os filmes da sessão Minas 01
Nove Águas, Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, Como se o céu fosse oceano

 

Renascerão as cidades submersas?
Os homens [e as mulheres] submersos — voltarão?

“Mundo Grande”, Carlos Drummond de Andrade

frame de “Como se o Céu Fosse Oceano”

No livro A sobrevivência dos vaga-lumes (2009), o filósofo francês Georges Didi-Huberman expõe o diagnóstico marcadamente pessimista e derrotista feito por pensadores europeus em meados dos anos 1970. Segundo eles, naquela época de escalada do capitalismo neofascista, se colocava em curso um perverso genocídio das culturas populares, desencadeado pela sociedade do espetáculo e do consumo. Fim dos tempos, apocalipses: os povos, os vaga-lumes, estavam desaparecendo; a experiência coletiva sendo destruída. No Brasil de hoje, 50 anos depois, podemos observar com evidência o explícito projeto neoliberal e neofascista em curso, com o sério agravante de sermos — ao contrário do contexto europeu analisado pelos autores — um país ainda colonizado. “Apesar do todo da máquina”, porém, Didi-Huberman resiste em confessar nossa derrota incomparável: “Há sem dúvida motivos para ser pessimista, contudo é tão mais necessário abrir os olhos na noite, se deslocar sem descanso, voltar a procurar os vaga-lumes”. Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados.

Os corpos, majoritariamente negros, que aparecem nos três filmes exibidos na primeira sessão da Mostra Minas, estão fortemente ameaçados pelo fascismo em tempos de necropolítica, tempos em que o Estado está autorizado a exterminar corpos minoritários. Em Nove Águas, de Gabriel Martins, a polícia ameaça desabrigar os moradores do quilombo dos Marques; uma cartela no final do filme nos lembra que o presidente de extrema-direita não irá demarcar mais nenhum centímetro de terra para os povos quilombolas. Em Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito, viaturas policiais atravessam fantasmaticamente a cena da ocupação urbana do MLB; a cartela no final do filme nos diz que duas das três ocupações filmadas foram violentamente despejadas pela polícia. Em Como se o céu fosse oceano, de Breno Henrique, o protagonista Gabriel confessa viver sentindo “um medo constante.” Apesar do terror que os atravessam, os filmes não se reduzem a constatar o pessimismo de nosso tempo sombrio, os cineastas, ao contrário, se deslocam para procurar o brilho dos vaga-lumes. Com suas comunidades de afeto e resistência, os personagens afirmam suas potências, experiências e sobrevivências: sujeitos que cantam, rememoram e celebram a história de seus antepassados (Nove Águas); sujeitos que lutam, ocupam e constroem coletivamente a conquista pela moradia digna (Conte isso); sujeitos que festejam, cantam, amam, se divertem (Como se o céu).  


frames de “Como se o Céu Fosse Oceano”

Aproprio-me dos versos da música Cidade submersa, de Paulinho da Viola, para pensar sobre o filme Conte isso. Os militantes do MLB erguem, em silêncio, como piratas perdidos, uma bandeira vermelha e se assentam. Mexem e remexem (que histórias enterradas ali? quem ali já ocupou, resistiu, construiu?), se perdem e se adormecem nas ruínas da cidade submersa. Sonham um lar que não conhecem, como não conhecem as ondas de seus corações, numerosos. Dandara, Eliana Silva, Carolina Maria de Jesus, Paulo Freire: restaram que nem cinzas, renasceram nomeando as ocupações. Vagarosamente, caminhamos para dentro do filme junto aos personagens. A câmera — ela mesma um corpo — filma os corpos com proximidade, de um ponto de vista submerso na luta. Os espectadores são convidados a submergir naquela situação, a experimentar cinematograficamente a tensão e a suspensão, o espaço e o tempo do processo de ocupação. Imersos na noite, os sujeitos se tornam vaga-lumes (como já notou Vinícius Andrade no ensaio para o catálogo do forumdoc.bh): as luzes de suas lanternas se misturam às luzes da cidade. Eles poderiam nos dizer, com as palavras de Drummond, “eu sou a cidade, a cidade sou eu, meu amor.” Em um gesto ritualístico — que exige silêncio, sintonia, confiança e coletividade — aqueles corpos ocupam o território, exigem sua sobrevivência.


frame de “Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados”

Nove Águas também começa com um processo de ocupação de terra, com a formação de um quilombo, em 1930. O filme se submerge no rio da história da comunidade dos Marques. A história submersa do quilombo emerge no filme com o processo de reencenação e rememoração feita pelos personagens, que roteirizam, filmam e fabulam suas próprias memórias e experiências. As cidades submersas renasceram, os homens e as mulheres submersos voltaram. O retorno ao passado é realizado como gesto de intervenção no presente, de afirmação da longa re-existência histórica da comunidade para que seu futuro possa ser imaginado e reivindicado diante dos antropólogos do governo que duvidam da identidade cultural daquele povo. O filme é um meio para que a comunidade não desapareça e não seja destruída (nem na imagem e no imaginário; nem no território e no mapa); é um meio para que a comunidade possa aparecer para si mesma, se constituir e se elaborar autonomamente, sem a necessidade de uma determinação de especialistas externos.


frame de “Como se o Céu Fosse Oceano”

Em Como se o céu fosse o oceano, uma comunidade de personagens negros ocupa, por sua vez, o centro de uma grande cidade: corpos que não estão mais situados apenas nas periferias ou no campo. A imagem desse povo também não é mais objeto de um olhar externo, esses jovens (estudantes do Centro Universitário UNA) são agora sujeitos de suas próprias aparições. A imagem desses sujeitos não está mais submersa, apagada ou estereotipada em nosso imaginário; ela começa a emergir de novas maneiras em diversos filmes contemporâneos realizados por múltiplos/as cineastas negros/as ao redor do país. Os protagonistas dessa história se submergem em uma piscina — como se fosse no oceano —, navegam e se deslocam na cidade — como se fosse um oceano —, emergem para correr e olhar o céu — como se fosse no oceano. Sujeitos com “sensibilidades oceânicas”, como diria Júlia Panadés. Sujeitos que — apesar do todo da máquina — resistem e sobrevivem, como lampejos. Sujeitos que, como canta Negro Leo: “não morre[m] numa máquina, re-exist[em] numa máquina.”


*este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Cinema em Perspectiva: Reconfigurações do Fazer Crítico, ministrado pela crítica Kênia Freitas