Filhas de Lavadeiras: Um filme sobre a força da união das mulheres negras

por Arthur Arantes Souza

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O que une a história das mulheres negras brasileiras? Essa é a pergunta que ficou em minha cabeça após assistir o documentário “Filhas de Lavadeiras”, de Edileuza de Souza, de quem já conhecia um pouco da carreira como pesquisadora através de sua tese de doutoramento “Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade”, importante estudo sobre cinema e identidade feito no começo desta década de 2010.

É muito comum as narrativas midiáticas e fílmicas responderem à pergunta que me coloquei com os aspectos doloridos da vivência dos negros no país, mas este filme não é sobre (pelo menos não totalmente) as dores destas mulheres. Através do formato tradicional de cabeças falantes, diversas mulheres narram histórias que partem de um ponto em comum e obtém o mesmo resultado, mesmo que de modos diferentes: como indicado pelo título, todas elas são filhas de lavadeiras e herdam da mãe não a profissão, mas o impulso para mudarem destinos que poderiam ser sacramentados pela perversidade do racismo. Em resumo, é um filme sobre o poder da agência dessas mulheres.

A simplicidade estrutural do filme não o enfraquece, pelo contrário. As sequências nas quais as histórias são narradas possuem uma atmosfera de intimidade que demonstra como o trabalho da direção em criar um ambiente de fala e escuta livre e horizontal foi bem-sucedido, o que transparece em momentos de descontração das entrevistadas. Outro aspecto da construção do curta que gostaria de chamar a atenção são as cenas em que mulheres lavam roupa em um rio, encenando o passado e demonstrando a importância da ligação comunitária existente antes e que tem suas consequências positivas hoje.

Contudo não são estes seus elementos mais meritórios, já que a força do filme está na união das histórias, ainda que algumas mulheres que expõem seus relatos sejam rostos conhecidos do público, como a deputada Benedita da Silva e a escritora Conceição Evaristo e que tenha sido o último e emocionante registro em audiovisual da atriz Ruth de Souza, que não poderia ter sido filmada em um lugar mais emblemático do que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um palco que era incompleto até debutar como sua primeira atriz negra.

Como história coletiva, o filme demonstra mulheres de diversas gerações que relembram como o sacrifício de suas mães forneceu a base material para ocuparem espaços na sociedade brasileira como professoras, atrizes, políticas e empresárias. Mães que enfrentaram a estrutura de uma sociedade que por vezes aproveitou-se delas para levar duas empregadas pelo preço de uma ao impor que as suas filhas também trabalhassem. Mães que puderam ver suas filhas entrarem em universidades federais (e filhas que puderam ver suas mães concluírem seus estudos). Uma história que mostra como se deslocar o foco das narrativas sobre o negro. Em suma, o filme responde minha pergunta afirmando que a história das mulheres negras também é unida pelo apoio, pelo amor e pelas possibilidades

 

Arthur Arantes Souza
Pesquisador, doutorando em Sociologia no PPGS-UFMG;
Pesquisa a trajetória profissional de diretores e diretoras negras do cinema nacional e negros no mercado de trabalho do audiovisual brasileiro.


*este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Cinema em Perspectiva: Reconfigurações do Fazer Crítico, ministrado pela crítica Kênia Freitas