No fracasso das relações cotidianas, a negritude há de nos salvar?

por Gabriel Araújo

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Competitiva Brasil – Programa 2
Ronda, de Mauricio Battistuci e Francisco Miguez (SP, 2019)
A Felicidade Delas, de Carol Rodrigues (SP, 2019);
Estranho Animal, de Arthur B. Senra (MG/DF, 2019)
Negrum3, de Diego Paulino (SP,2018)

Uma espécie de falência parecia guiar a maioria dos filmes exibidos no segundo programa da Competitiva Brasil do 21º FestCurtasBH. Falência perceptível nos cenários em ruínas, que perpassaram, de modos diferentes, pelo menos três filmes da sessão; falência presente nas questões que impulsionaram essas curtas – demandas urgentes num país onde o discurso neoliberal e conservador ganha força e adeptos continuadamente.

Em Ronda, dos diretores Mauricio Battistuci e Francisco Miguez, esse aspecto é ressaltado com mais força. Ao acompanhar a trajetória de Hélio, segurança desempregado na cidade mais industrializada do Brasil, vamos além da falência proposta para encarar, de frente, um futuro sem possibilidades de virada. Em época de uberização do trabalho, é irônico perceber que o único respiro que o curta nos traz vem dentro de um pretenso uber; quando uma mulher, engalfinhada numa rotina intensa de um emprego supostamente proeminente, cria uma utopia momentânea para que ela enfim possa apenas descansar.

No entanto, Hélio não compartilha desse sonho. Preso aos mecanismos que o enclausuraram nesse mundo, repete incansavelmente aquilo que aprendeu a ser, ignorando qualquer outra possibilidade de existência que não passe pelo crivo do capital. Vê-se ali a triste conformação de quem não consegue resistir mais. Não é a toa que essa ideia passe da subjetividade de Hélio para a coletividade da situação de milhares de brasileiros justamente num espaço em ruínas – indicativo físico e material da falência que representa o nosso presente.

Estranho Animal, curta de Arthur B. Senra, brinca com esse fator. Ignora a perspectiva histórica pela qual estamos acostumados a enxergar a repressão para localizar a falência no passado, no presente e numa das inúmeras possibilidades de futuro. “Decolam os sonhos, aterrissam os pesadelos”, diz o filme. Citação representada na constante metáfora entre os pássaros mortos e aprisionados, indicativos de uma ditadura que insiste em voltar, e a realidade imaginada de um pássaro que alça voo em plena animação, idílica visão de liberdade.

É um “tratado dos voos”, como escreve Fabio Rodrigues Filho no catálogo do Festival, que encontra nos traços pontiagudos e nas linhas embaralhadas de um lápis esfumaçado uma possibilidade de resistência poética, lírica e universal.

Contudo, se a poesia ainda for capaz de nos salvar, acredito que ela não deva vir desacompanhada. Em tempos de guerra, faz-se necessário partir para o ataque. E tanto A Felicidade Delas quanto Negrum3 carregam com louvor o fuzil outrora anunciado por Zózimo Bulbul – aquele mesmo que disse que “o cinema é uma arma, nós negros temos uma AR15 e com certeza sabemos atirar”.

Não que ambos não partam, por sua vez, dessa ideia de falência que guia minha interpretação. Afinal, ruínas também estão presentes no cenário onde as mulheres se escondem da polícia, assim como o espelho quebrado do início de Negrum3 indica o fracasso de um modelo que subjuga corpos e formas de existências diversas. Porém, nos curtas, a falência é apenas um ponto de partida: o momento da virada onde certos sistemas normativos precisam lidar com as realidades que não suportam mais a subalternização. E elas chegam em enchentes. Em tiro, porrada e bomba. Em discursos de afirmação.

As cores propositalmente saturadas de A Felicidade Delas já denunciam a opção pelo realismo fantástico da narrativa, ressaltando a/o tensão/tesão existente entre aquelas personagens – mulheres, negras e lésbicas – que encontram outras formas de resistência para além da passeata de rua. O curta de Carol Rodrigues evidencia, de todas as formas, a política contida no gesto de amar, fazendo com que o breve encontro daqueles corpos já molhados inunde uma cidade gigante como São Paulo.    

Negrum3, por sua vez, parte da decadência de um etnocentrismo branco, masculino e cisgênero para apresentar uma diversidade de mundos possíveis, numa ânsia por falar que preenche seus 22 minutos de duração com momentos tão distintos quanto complementares entre si. É tanto performance quanto documentário. É tanto ficção quanto clipe audiovisual. É um manifesto pela existência preta, do modo como tal existência preferir existir. Pois sua estética afrofuturista, calcada pela ação no presente, desmistifica qualquer argumento que porventura apontaria para a apatia da nossa sociedade contemporânea – Negrum3 coloca uma vírgula nesse nós, como se dissesse: “meu amor, as mana preta estão resistindo desde sempre e vão continuar com essa potência nesse babado forte”.

Vide o carão, o shade, o tombamento daquela míriade de corpos e rostos que compõem o curta. Daquelas histórias que, mesmo se entrecruzando em algumas experiências, apresentam singularidades e ousados modos de reação. Do resgate pela ancestralidade de quem, no passado, abriu as portas para que estivéssemos aqui. Negrum3 é a materialização da força do aquilombamento, colete necessário para nos defendermos dos tiros e chicotes que ainda assolam nossas vidas.


*este texto foi produzido como parte da Oficina Corpo Crítico – Cinema em Perspectiva: Reconfigurações do Fazer Crítico, ministrado pela crítica Kênia Freitas