Pautas silenciadas e diálogos ausentes: O Dia de Jerusa

Iara Félix Pires Viana¹

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A noite não adormece nos olhos das mulheres, a lua fêmea,
semelhante nossa, em vigília atenta vigia a nossa memória.

(Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres)

Elipse2
Quando assistimos a um filme, além de vivenciarmos o lazer, nós podemos estabelecer contato audiovisual e vínculo emocional não apenas com paisagens diversas, mas também com as personagens projetadas na tela. Assim, o cinema pode ser visto como uma viagem simbólica que contempla relações sociais entre pessoas, mediadas por imagens. Nesse processo, o nosso olhar vai sendo construído e muitos valores vão sendo assimilados.

O curta metragem O dia de Jerusa3, dirigido pela cineasta Viviane Ferreira4 é apresentado dentro da produção do cinema negro no feminino5 e reflete sobre as imagens de identidade, lembranças e amores a partir do encontro de duas mulheres negras de gerações diferentes, as protagonistas Jerusa (Léa Garcia) e Sílvia (Débora Marçal). A partir do discurso crítico de Homi Bhabha (1998) quando afirma a necessidade de se ler o cânone do espaço das margens, onde se esgarça o discurso que emana do centro, podemos pensar que essa narrativa fílmica de Viviane Ferreira sinaliza para o lugar de fala das minorias – distante do discurso oficial. São exemplos de vozes outras enunciando e denunciando um discurso hegemônico que está presente nos filmes de cineastas não negros/negras que desejam silenciar e, muitas vezes, ignorar as vozes de uma memória coletiva.

A primeira sequência do curta contém reflexões importantes onde a cantoria na periferia soa enquanto Jerusa caminha com passos suaves e um sorriso sereno no rosto. Surge Kléber (Majó Sesan), um poeta em situação de rua, que declama estrofes do poema “Minha mãe”, de Luiz Gama6.

Era mui bela e formosa, era a mais linda pretinha, da adusta Líbia rainha, e no Brasil pobre escrava! Oh, que saudades que eu tenho; dos seus mimosos carinhos,

A narrativa nos situa no tempo da saudade e remonta ao passado, mas aponta para a necessidade de desvelar a pauta da solidão das mulheres negras, atribuindo visibilidade a histórias silenciadas, apresenta um corpo negro no chão, com olhar firme e brilhante que nos convoca para a luta. Ao escolher como cenário o bairro do Bixiga, a diretora já revela seu posicionamento político. O Bixiga, onde se concentra uma parte da historicidade da cultura negra, está entre os bairros com maior população afrodescendente de São Paulo. No bairro, que abrange a Rua 13 de Maio e a Rua da Abolição, a cineasta marca nos espaços e cenários as consequências históricas do passado escravocrata e o que resultou da falsa abolição no dia 13 de maio de 1888. Como elo entre passado, presente e futuro, a cena denuncia de forma sutil algumas situações de vida e sobrevivência do povo negro: mendicância, moradores em situação de rua, subempregos, solidão e loucura compõem significativamente a narrativa fílmica que se anuncia no prefácio do roteiro.

 

Cena7
Viviane nos seduz por colocar na tela diálogos que também se encerram em monólogos. A feitura do bolo de aniversário que Jerusa faz para si mesma: diálogo com a data e os possíveis/invisíveis convidados. A narrativa da mesa posta com jarra de flores: diálogo da alegria e da solidão na qual Jerusa está encerrada. A perda de paciência da jovem pesquisadora que tenta entrevistar Jerusa, mas que exatamente no momento em que, nervosa, se enclausura no banheiro da casa, descobre sua aprovação no vestibular: diálogo de sua luta interna com sua luta externa.

As narrativas, cujo fio condutor pode ser posicionado como brechtiano, através do teatro épico8 em função de seu posicionamento estético e político, invadem O Dia de Jerusa; há tomadas nas quais até os silêncios levam o espectador a dialogar com as cenas, interagir e buscar se posicionar diante dos fatos: aquele corpo negro que declama o poema na abertura do filme seria um sujeito louco e por isso está na rua ou um sujeito em situação de rua que enlouqueceu por estar na rua? De que época vem à tona sua lucidez? Tais indagações nos levam a identificar o intuito didático do teatro brechtiano, a intenção de apresentar um “palco científico” capaz de esclarecer ao público sobre a sociedade e a necessidade de transformá-la: capaz ao mesmo tempo de ativar o público, de nele suscitar a ação transformadora. Convencido da necessidade da intervenção transformadora, diz Brecht:

“distanciar quer dizer historicizar, ou seja, representar fatos e pessoas como elementos históricos, como elementos perecedores. E o novo espectador será recebido como o grande transformador, o que tem conseguido intervir nos processos da natureza e nos processos sociais, o que já não se contenta em tomar o mundo tal qual e, senão que em dominá-lo9.”

Vendo as coisas sempre tal como elas são, elas se tornam corriqueiras, habituais, naturalizadas e, por isso, incompreensíveis. Quando nos identificamos com elas pela retina, não as vemos com o olhar épico da distância, vivemos mergulhados nessa situação petrificada e ficamos petrificados com ela. Alienamo-nos da nossa própria força criativa e plenitude humana ao nos abandonarmos, inertes, em uma situação habitual que se nos afigura eterna. É preciso um novo movimento desalienador através do distanciamento – para que nós mesmos e a nossa situação se tornem objetos do nosso juízo critico e para que, dessa forma, possamos reencontrar e reentrar na posse das nossas virtualidades criativas e transformadoras.

Como mulher negra e cineasta, os trabalhos10 de Viviane Ferreira, espelham compromissos, ao mesmo tempo em que devolvem à sua comunidade o protagonismo da história. São narrativas de superação, rompimentos e afetos construídas sob o zelo de um fazer cinema que humaniza e plenifica as subjetividades da população negra. Em seu trabalho, Viviane tece uma construção imagética que apresenta novas representações sobre as mulheres negras. Como afirma a também cineasta Renata Martins, ao construírem seus filmes, nós mulheres criamos um protagonismo feminino, apresentamos narrativas que surgem a partir dos nossos lugares de fala.

Fazendo coro com PIRES (1998), reafirmo que essa produção audiovisual que realiza fissuras nos textos que representam o discurso hegemônico da nação, é determinante para que se possa falar numa especificidade artística a partir da qual torna-se possível pensar na enunciação das diferenças que se contrapõem à hegemonia do discurso racista da sociedade brasileira. Essas são produções discursivas desestabilizadoras da homogeneidade narrativa no cinema.

Léa Garcia, que expressa uma melancolia implícita na simplicidade de seus gestos, ou talvez graças ao modo com que a diretora explora o peso da solidão, com a leveza de uma tarde repleta de bolos e devaneios sobre a vida, nos provoca uma análise fanoniana, quando nos diz: “Não sou uma potencialidade de algo, sou plenamente o que sou. Não tenho de recorrer ao universal. No meu peito nenhuma probabilidade tem lugar. Minha consciência negra não se assume como a falta de algo.” (FANON, 2008,p124)

Onde escrever sobre esses filmes, tachados de panfletos militantes, como um gesto necessário de formação do olhar – nosso , de quem escreve, e daqueles(as) que fazem os filmes, colocando essas sensibilidades para conversar e conservar?

O Dia de Jerusa é um filme que apresenta a possibilidade, na tela do cinema, de vivenciarmos amor, ancestralidade e memória como estratégias fundamentais para a transformação da sociedade a que pertencemos principalmente no que tange à vida de mulheres negras. Viviane Ferreira assina o protagonismo do Cinema Negro no feminino, no qual não se concebem estereotipias e arquétipos do povo negro em funções e papéis de subalternidade, é sem dúvida um curta que educa para as relações étnicas raciais.


[1] Formada em Geografia pela UFMG, Mestre e Doutoranda em Estudos do Lazer – PPGIEL – UFMG na Linha de Pesquisa: Lazer, Cultura e Educação, militante do Movimento de Mulheres Negras de MG. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais como Superintendente de Modalidades e Temáticas Especiais de Ensino. E-mail: iara.flix@gmail.com

[2] Significa diálogo ou acontecimento que não são mostrados entre um plano e outro. No cinema, na televisão e em outras formas narrativas — refere-se à omissão intencional de códigos e/ou informações facilmente identificáveis pelo contexto, por elementos, códigos ou significados construídos por sucessões de imagens sequenciadas, permitindo que a imaginação do leitor preencha uma lacuna na narrativa.

[3] Ficha Técnica do filme: Título: O Dia de Jerusa (Original). Ano produção: 2014 / Estreia 2014 (Mundial). Dirigido por: Viviane Ferreira. Gênero: Ficção. Duração: 20 minutos. Brasil. Sinopse: Um dia de Jerusa relata o encontro de. Jerusa (Léa Garcia), moradora do bairro do Bixiga, São Paulo com uma pesquisadora de opinião, Sílvia (Débora Marçal). No encontro dessas duas mulheres, identidades, memórias, afetos, diálogos ausentes, pautas silenciadas se articulam tecendo momentos de solidão, cumplicidade e felicidade. Foi selecionado para a mostra de curtas-metragens (Short Film Corner), do Festival de Cannes 2014, na França.

[4] Viviane Ferreira é cineasta, produtora e empreendedora social, advogada e designer instrucional especializada na plataforma moodle. É coordenadora de formação da Produtora Odun.

[5] No Cinema Negro feminino temos a presença protagonizadora de cineastas negras valorizando a cultura negra brasileira e tirando da invisibilidade a riqueza das tradições negras que são matrizes desse fazer cultural.

[6] Filho de Luísa Mahin, foi um dos líderes da abolição da escravatura no Brasil, escritor, poeta, jornalista e advogado. Lutou brava e romanticamente – por meio de sua escrita – durante toda a sua vida pela vida dos seus.

[7] Conjunto de planos, ou seja, a menor unidade de tempo em que se desenrola uma parte do filme.

[8] O Teatro Épico, assim denominado por Brecht em 1926, quando publicou Um Homem é Um Homem. A peça é decididamente narrativa; os personagens interrompem a ação e dirigem-se diretamente ao público, comentando ou ironizando uma situação ou uma ideia. Ele cita a si mesmo na peça e usa um processo novo: a metamorfose em cena. O texto é o primeiro exemplo de teatro didático e pedagógico em sua obra.

[9] Cf. BRECHT, Bertold. Escritos Sobre Teatro, tomo 1, cap. Vll, p. 121

[10] Viviane Ferreira dirigiu os curtas: Peregrinação (Documentário 50 min., ano 2014); D’Origem Africana (Videoclipe, 4min. 40seg. em 2013); Amor ao rap (Videoclipe, 4 min. 40 seg., ano 2012); e Mumbi7cenas Pós Burkina (Ficção, 7 min., ano 2010), todos realizados pela sua empresa, a Odun.

REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Ed. UFMG, 1998.
BRECHT, Bertold. Escritos Sobre Teatro, tomo 1, cap. Vll.
EVARISTO, C. Becos da memória. Santa Catarina: Mulheres, 2013.
PIRES, Rosane Viana. Narrativas Quilombolas: Negros em Contos, de Cuti e Mayombe, de Pepetela. Dissertação de Mestrado, UFMG. 1998.
RICOEUR, P. 2007. A Memória, a história, o esquecimento. Campinas, Unicamp, 536 p
SELIGMANN-SILVA, Marcio. História, memória, literatura – o testemunho na era das catástrofes. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.


*este texto foi produzido como parte da Oficina de Crítica de Cinema – Por Um Deslocamento do Olhar, ministrado pela crítica Carol Almeida