“É da carne que estou falando aqui. Carne que precisa ser amada.”1
por Alessandra Brito e Letícia Bispo

Mas nem tudo é palavra.
Nem a palavra pode tudo.
Porque também somos imagem
(em ininterrupta, mas descontínua
movência): rastro de coisas i/móveis
que nenhum nome,
palavra nenhuma designa

(Ricardo Aleixo)

 

A mostra Corpo Político retorna ao festival carregada pelo peso de uma temporalidade que tem nos provocado sufocamento. A pandemia da Covid-19 tornou ainda mais evidente a dimensão política dos corpos que, em suas realidades e visibilidades múltiplas, estão sujeitos à exclusão, à doença e à morte, uns bem mais do que outros, em uma ordem hegemônica que esmaga e aprisiona o dissidente. Somos, no entanto, provocados pelos filmes a pensar além dessa dimensão trágica. Diante de um presente que parece tão delimitado, marcado pelo isolamento e falta de ar, os filmes que centram corporeidades oferecem a possibilidade viva de movimento e intervenção. Podemos vislumbrar, então, aparições que provocam os sentidos a tomar caminhos contrários ao esquecimento, à inação e à conformidade.

Corpo e espaços

Corpos que ressignificam espaços, movimentam-se e, portanto, modificam paisagens naturais e urbanas. Em Then Comes The Evening (2019), a cineasta bósnia Maja Novaković repousa o olhar sobre a pele-terra de duas senhoras que guardam no corpo um tempo que convida, ao mesmo tempo, ao vagar e ao dinamismo do trabalho com a terra. Um corpo velho que zela por um outro ainda mais velho, em uma relação de similitude e continuidade, entre si e com a natureza. Em Inabitáveis (2020), de Anderson Bardot, o espaço urbano de Vitória (ES) é expandido pela presença de corpos pretos, bichas e transgêneros, que deslocam por meio da performance os limites e possibilidades de uma realidade violenta, marcada por processos coloniais não encerrados. A expansão das corporeidades através da dança é também foco de Swinguerra (2019), de Barbara Wagner e Benjamin de Burca. Movimentos evocados por diversas sonoridades — como funk, swing, brega e suas misturas —  transformam as ruas das cidades brasileiras em palcos de pulsantes disputas e dão rosto(s) e corpo(s) aos mais variados desejos.

 Corpo e afetos

 Aqui neste lugar, nós somos carne;
carne que chora, ri; carne que dança
descalça na relva. Amem isso. Amem
forte. Lá fora não amam sua carne.

(Toni Morrison)

 

Em Carne (2019), Camila Kater opera com a animação para acolher os testemunhos da multiplicidade de existências do feminino. É dos corpos que emergem o violento e o sensível que permeiam a experiência vivida na carne em várias etapas das vidas das personagens. Também pela chave do testemunho de si surge O que pode um corpo? (2020), de Victor Di Marco e Márcio Picoli. Defrontamo-nos aqui com o verbo poder: ter a faculdade ou a possibilidade de. Possuir força física ou moral; ter influência, valimento. E com o questionamento: quais corpos podem conjugá-lo? A dimensão do humano a partir da ótica de capacidade produtiva impõe limites a existências que ultrapassam essa perspectiva. Da medicina que diz “apesar de tudo, você ainda funciona”, passamos ao sensível do corpo que não é uma máquina. A escolha de Victor pelo gesto performático amplia e intensifica a palavra corpo, que passa a ser sentimento, arte, amor.

A iraniana Amina Maher compõe em Letter to my mother (2019) uma complexa montagem que reúne relato autobiográfico, linguagem epistolar, arquivo e performance. A cineasta atravessa arquivos das próprias sessões de terapia e imagens de Dez (2002), de Abbas Kiarostami, do qual participou na infância, em busca da criação de um corpo autônomo, não definido pelo abuso. Liberto da fixidez. 

Apesar das estatísticas de morte e violência que recaem sobre as vidas negras e trans, em Inabitável (Matheus Farias e Enock Carvalho, 2020) nos movemos pelo amor de uma mãe e por uma rede de afetos, que por sua vez move a busca por Roberta, a filha desaparecida. O filme aponta para a possibilidade de habitar tempos e mundos em que caibam todas as corpas e vidas, e para invenção de um imaginário que não limite as imagens de pessoas trans às políticas de representação.

Corpo e fronteiras

O que a ideia colonial de fronteira impõe aos corpos? O filósofo camaronês Achille Mbembe2, em “A ideia de um mundo sem fronteiras”, convida-nos a pensar: como o aperfeiçoamento da necropolítica, das limitações sobre as liberdades pessoais e coletivas afeta “não apenas na vida social, mas também no corpo, o corpo que não é meu”.  O diretor Luiz Carlos de Alencar propõe, em Homens Invisíveis (2019), um exercício de alteridade: escutar vozes de homens trans em situação de encarceramento. “A prisão é por si só uma fronteira”, afirma Angela Davis3, “Existe uma economia política bastante específica da prisão que traz à luz a intersecção de gênero e raça, colonialismo e capitalismo”. No centro dessa intersecção, esses homens reivindicam o direito à integridade de seus corpos.

Em Image of Victory (2019), a israelense Adi Mishnayot filma o próprio irmão, um soldado israelense que, ferido em combate com a Palestina, é hospitalizado e celebrado como herói. Em meio a visitas de artistas, ex-soldados e condecorações, a fronteira emerge aqui como um elemento invisível e amargo, que do extracampo surge para permear a cena indagando: qual é o valor do corpo israelense em relação aos corpos do fora de campo? Se há um herói, onde estão os vencidos? O cineasta palestino Mahdi Fleifel nos oferece uma possibilidade de contracampo em 3 Logical Exits (2020). “O mundo está se fechando em mim”, diz Reda, palestino que vive em um campo de refugiados no sul do Líbano. Aprisionado por uma fronteira que, aqui, é material e visível, Reda desafia o espectador a confrontar seu olhar, a se colocar diante da narrativa oficial que já escolheu um “herói”, a despeito da contínua desumanização do corpo palestino.


Notas
1 MORRISON, Toni. Amada. Companhia das Letras: São Paulo, 2007.
2 MBEMBE, Achile. A ideia de um mundo sem fronteiras. Revista Serrote. Trad. Stephanie Borges. 2019. Disponível em: <https://www.revistaserrote.com.br/2019/05/a-ideia-de-um-mundo-sem-fronteiras-por-achille-mbembe/> Acesso em: 13 set. 2020
3 DAVIS, Angela; DENT, Gina. A prisão como fronteira: uma conversa sobre gênero, globalização e punição. Estudos Feministas, Florianópolis, 11(2): 360, Jul.-dez./2003. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2003000200011&script =sci_arttext> Acesso em 13 set. 2020.