Vinte edições. Se a efeméride muito nos orgulha, ela chega também com o reconhecimento de um percurso feito a muitas mãos, bem além das que cabem numa pequena lista de créditos, e a responsabilidade de estar à altura dessa história. Fazer jus à trajetória desse festival, de caráter público desde sua concepção, significa, antes de tudo, não deixar apaziguar a inquietação, estética, política e ética, que nos move, nos desconcerta, nos coloca insistentemente em questão. Inquietação que tem sido mais do que nunca estimulada pelas transformações no cenário de produção, circulação e legitimação de filmes e do pensamento produzido acerca deles. Ano após ano, acompanhamos e celebramos o extraordinário crescimento da produção por sujeitos históricos durante tanto tempo relegados quase exclusivamente a objetos do olhar no cinema, como parte de um processo político mais amplo que tem afetado profundamente nosso modo de ver, julgar, selecionar e pensar o cinema e as estruturas que o sustentam, impactando não apenas a seleção de filmes, como também as variadas atividades e práticas que compõem um festival.

Abordando a história do cinema negro para além das nossas fronteiras, apresentamos nesta edição um Tributo a Safi Faye, com a exibição de quatro trabalhos, inéditos no Brasil, dessa extraordinária cineasta e etnóloga senegalesa, considerada a primeira africana a realizar um filme e que segue ainda hoje em atividade. Ao privilegiar o foco no mundo rural (“fomos todos um dia camponeses”, ela reafirmou recentemente) e a luta e protagonismo das mulheres africanas, seus filmes se revelam de um pioneirismo também temático, e são constituídos por meio de formas que deixam transparecer sua formação em etnologia, com um olhar que se posiciona simultaneamente dentro e fora do universo que filma.

A exibição da filmografia completa da prolífica jovem cineasta ganesa-americana Akosua Adoma Owusu trará um outro recorte fascinante da produção de cinema negro no mundo, que se move entre o continente africano e a diáspora afro-americana, mobilizada fortemente por questões de gênero, identidade e cultura.

A programação de filmes é completada por mostras contemporâneas com rubricas familiares para quem acompanha o Festival, mas que a cada ano são reimaginadas a partir das linhas de força que atravessam e tensionam o cinema produzido no presente, sempre pensando os filmes em sua singularidade e também em cotejo com o que nos chega. São mostras competitivas – Internacional, Brasil e Minas – e paralelas – que este ano incluem Juventudes, Infantil, Animação e Maldita, além de três potentes variações de seções que surgiram na edição de 2017: Mulher: corpo político, Atravessamentos: memória da matéria, acessos alterados e Extravasamentos: torções do artifício, maneiras de saltar.

Intensificando sua vocação formativa, o FESTCURTASBH apresenta também, com particular alegria, a Oficina de crítica de cinema – Por um deslocamento do olhar. Oferecida pela crítica, pesquisadora e curadora Carol Almeida, a oficina propõe-se “não apenas a despertar um olhar mais atento e ativo em relação aos filmes, como também entender o que a definição do olhar cinematográfico implica estética e politicamente”.

As atividades formativas se completam com Filme como arte colaborativa – Oficina híbrida de mídia e performance, ministrada por Lynne Sachs, conceituada artista estadunidense que transita por diferentes suportes e técnicas com desenvoltura e inquieta inventividade.

Fruto do trabalho inspirado e profundamente dedicado de toda a equipe e dxs curadorxs e convidadxs, o FESTCURTASBH, em sua modesta escala, deseja contribuir para que as transformações no cenário cinematográfico, fundamentais mas ainda longe de suficientes, sejam contínuas e estruturais, tanto em relação à produção de cinema quanto na (re)construção de sua história.